Irohajima

· Cruising, 2026, Japan

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Afinal, em Yobuko também não fiquei lá muito bem amarrado: este cais tinha o mesmo problema de sempre, com a maré cheia sobram só uns 5 a 10 centímetros de cais. As pranchas e as defensas saltam facilmente por cima e a linha de água pintada, que é sensível, fica a roçar no cais. Por isso, em vez de ir no dia seguinte de trotinete elétrica aos vendedores de polvo ali um pouco mais à frente, tratei foi de me pôr a andar dali para fora num instante. Pena, que eu bem lá tinha ficado mais tempo. A seguir estava no plano a baía que já tínhamos avistado na viagem de carro de Hirado para Fukuoka. Para chegar ao estaleiro, tínhamos dado a volta à ilha de Fukushima, também à procura de um sítio para almoçar. Infelizmente estava tudo fechado, mas ao menos vimos a ilha inteira! E, portanto, também a baía a nordeste de Fukushima. Mais uma vez quase não havia vento e foi tudo feito a motor. 3, talvez 5 nós, tudo vento térmico, que não serve para nada.

Pelo caminho percebi bem porque é que nem o Kirk alguma vez visitou esta baía. Arribamos para dentro de uma baía grande que não tem nada de especialmente atraente. Uma central a carvão enorme com duas chaminés gigantescas e, logo a seguir, a maior central nuclear do oeste do Japão. Depois ainda estaleiros e mais indústria. Uma pessoa pensa: para que é que hei de continuar por aqui adentro? Até eu hesitei um bocado. Ainda bem que continuei. Duas esquinas depois, fica-se de boca aberta. Fundeado no meio de uma quantidade enorme de ilhotas, cada uma mais amorosa do que a outra. Todas com aquilo a que chamamos árvores «japonesas»: tortas, não muito altas, mas lindíssimas. E ainda por cima rochedos que, graças à luz, mudam de aspeto de hora a hora. Acho que é o fundeadouro mais bonito onde alguma vez estive. E ainda por cima super abrigado: a baía e as ilhotas fazem com que quase não haja ondulação, e os montes altos à volta travam o vento. Vê-se alguma ocupação humana, um lugarejo, uma pontinha de um estaleiro, um hotel (fechado) com uma praia. Ao longe, umas linhas elétricas. Tirando o habitual «alarme da aldeia» (às 07:00, 12:00, 17:00 e 18:00 toca uma musiquinha), não se ouve absolutamente nada.

Afinal, o sítio que eu tinha escolhido até tinha um símbolo de «sítio bonito» no Google Maps, ver Irohajima. Cito uma das avaliações:

*As ilhas Iroha (Irohajima) são o nome coletivo de inúmeras ilhas desabitadas no mar entre Hizen-cho (cidade de Karatsu, prefeitura de Saga) e Fukushima-cho (cidade de Matsuura, prefeitura de Nagasaki), na parte oriental da baía de Imari. O nome escreve-se por vezes Iroha-jima. Fala-se em 48 ilhas; o nome «ilhas Iroha» deriva dos 48 caracteres do silabário japonês (o «Iroha»). Entre as ilhas principais contam-se Benten-jima, Matsushima e Takenoko-jima.

Número de ilhas: 48 (consoante a delimitação). As ilhas do lado da prefeitura de Saga umas vezes são contadas como ilhas Iroha, outras vezes não.*

Administrativamente pertencem todas à cidade de Matsuura (prefeitura de Nagasaki), mas ilhas do lado da prefeitura de Saga, como Shimayama-jima, são por vezes também incluídas no grupo. Devido à magnífica vista sobre o arquipélago a partir dos miradouros do parque Mitsukoshi (Hizen-cho, cidade de Karatsu) e do parque Oyama (Fukushima-cho, cidade de Matsuura), as ilhas são frequentemente referidas nos guias turísticos da prefeitura de Saga e das cidades de Karatsu e Matsuura. Diz a lenda que o famoso monge budista Kobo Daishi ficou tão impressionado com a paisagem de cortar a respiração que deixou cair o pincel enquanto pintava. A zona faz parte do Parque Quase-Nacional de Genkai.

Como as ilhas ficam dentro de uma baía, as águas à volta são calmas; isto faz da zona um local popular para a cultura de pérolas e um conhecido sítio de ostras selvagens.

Depois de um dia a descansar e sozinho, dou-me conta de repente de que precisava mesmo disto. E muito. Afinal já ando há 12 meses na estrada (com dois meses em casa pelo meio) e, desde o Panamá no início de maio, foram primeiro 9000 milhas a atravessar o Pacífico e depois um mês inteiro de impressões novas e, a cada dois ou três dias, outro sítio. Penso que agora não há necessidade nenhuma disto e decido ficar até me fartar.

No dia seguinte vejo que, 3 quilómetros mais à frente, há um portinho com um espaço de churrasco gerido pelos pescadores locais. Só abre ao fim de semana, claro. Compra-se lá um saco de ostras, vê-se como se faz (eles mostram) e depois temos de as preparar nós próprios na grelha. Parece mesmo espetacular. No sábado acabo por pensar: continuo sem pachorra nenhuma, mas vou já soltar o bote para estar «pronto» no dia seguinte. Depois pego no depósito de gasolina. Ehhh, que parvoíce: o respiro esteve aberto desde as San Blas e a gasolina evaporou-se toda! Pois, assim não vou a terra. Acabo por cozinhar o meu guisado mexicano de feijão, que também é bom. Só ao terceiro dia é que percebo a coisa.

Trato de uns biscates no barco e consigo concentrar-me à vontade no software open source em que ando a trabalhar. Infelizmente também há umas questões de «gestão» por lá. Com o uso de IA, de repente ficou mais fácil escrever software do que avaliar se ele «encaixa» no panorama geral, e começam a surgir irritações de todo o tipo entre (outros) programadores. Como um dos fundadores do Signal K, pedem-me para ver se conseguimos acalmar uma zanga. Aqui sou a parte neutra, mas não deixo de me irritar com um programador finlandês que não é propriamente flexível. Como diz o outro cofundador finlandês:

Como é que um engenheiro dobra um carril? O mais inteligente cede.

Explicação

Ou seja, um engenheiro é mais burro e menos flexível do que um carril…

A boa notícia é que, com a idade, aprende-se a lidar com isto com mais calma, por isso não deixo que me estrague o humor. Já disse como isto aqui é bonito? Estou a ficar mesmo zen…

Entretanto passa um barquinho aberto com 3 homens, dois deles de colete salva-vidas cor de laranja. Apontam para a bandeira e perguntam «America?» Não, «Oranda». Ficam de boca aberta. A seguir fazem mais uma pergunta, que eu suponho ser se vim a velejar até aqui. Sim, «Hai», claro. Agora ficam completamente estarrecidos e começam a fazer grandes vénias e a exclamar «ooooohhhh». Pois, dar a volta ao mundo à vela é coisa que não cabe 100% na mentalidade japonesa, em que uma pessoa se tem de conformar e adaptar e não destoar demasiado. Mas pelos vistos acham piada quando alguém o faz. Também nas tasquinhas onde às vezes nos olham primeiro um bocado de cima, afinal não passamos de um estrangeiro («Gaijin»), mudam completamente de atitude quando a Marion dizia que eu tinha vindo à vela, lá desde a «Oranda» (via Olanda, Holanda). Num «Yotto», o japonês para veleiro. Adivinhem lá de quem é que esta palavra foi emprestada.

Só ao fim de uma semana nesta baía é que acabo por seguir para o próximo sítio. E sobretudo porque vem aí uma mudança de tempo; se não fosse na quinta-feira (3 de setembro), ficava preso mais uma semana, e sem transporte para terra isso torna-se comprido. Na quarta-feira falo com o Kirk e a Mari do Konpira e, na quinta-feira, acabo por navegar de uma assentada até à Kamigoto Umi sea station em Nakadori, a maior das ilhas Goto. Mas sobre isso conto mais da próxima vez.

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