O Mar "Interior" de Seto

· Cruising, 2026, Japan

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De 15 de julho até ontem, 13 de agosto, a Marion, a Ella, o Arnold e eu acampámos pela primeira vez em anos os quatro ao mesmo tempo no barco. O Arnold ficou até depois do aniversário da Ella e depois voltou para casa via Coreia.

As senhoras criaram no Polarsteps uma viagem conjunta, onde se pode acompanhar dia a dia o que andamos a fazer. Quando releio aquilo, quase diria que durante quatro semanas foi, de dois em dois dias, outra vez o “Dia da Marmota”. Isto precisa de algum contexto. Na Europa, mas não só, os velejadores estão habituados a navegar muito ao deus-dará. Sai-se quando apetece e chega-se quando se quer. Depois procura-se um lugarzinho livre ou, se for em horário de expediente, apresentamo-nos ao capitão do porto. Na Holanda, mas também na Escandinávia, reservar não é costume, nem sequer é possível. Afinal, os barcos de passagem vão-se amarrando de braço dado uns aos outros até se conseguir, literalmente, atravessar a marina a pé de um lado ao outro. Com o nosso barco, um pouco maior, hoje em dia já tenho a noção de onde é preciso reservar. Da zona de Lisboa para baixo, por exemplo: as marinas estão bastante cheias e têm pouco espaço para quem está de passagem, ou esse espaço já está ocupado por quem chegou de passagem mas acabou por ficar…

No Japão não é assim. Até as interessantes Umi no Eki pedem muitas vezes reserva com pelo menos três dias de antecedência; uau. E de preferência em japonês. E onde é que se tem de ficar exatamente? Isso também nem sempre é fácil. Nos sítios mais selvagens, mais para o “lado de fora”, ainda se podia arriscar, mas nós tínhamos apenas um mês para uma região onde se podem passar anos sem esforço. Só existe um roteiro náutico, e bastante sumário. Por isso pedimos ao Kirk Patterson, o nosso agente, que nos traçasse um percurso giro. O ritmo era então o seguinte: o Kirk manda-nos, com um ou dois dias de antecedência, os detalhes do próximo destino. Lá vem, em linhas gerais, o rumo a seguir, porque não passamos debaixo de pontes baixas e aqui e ali temos de dar uma volta considerável. Depois uma imagem de onde devemos atracar, e em que hotel ou posto de turismo pagamos a taxa portuária, etc. Mas também: a que horas temos de sair e a que horas nos esperam. Ao fim de umas quantas vezes percebemos que aquilo não era à toa: já estão uns senhores no pontão há meia hora à nossa espera… Ups. Depois, como estavam 35 graus à sombra, descansar um bocado da manobra debaixo do bimini, procurar uma brisa se houvesse, uma sesta, e depois ir à vila tomar uma bebida e comer. No dia seguinte, ir ao(s) sítio(s) especial(ais) da ilha (que normalmente há), e depois mais um petisco e uma bebida, para no dia a seguir seguir para o porto seguinte. Neste troço estivemos nas seguintes ilhas e portos:

  • Mitarai (só uma vila amorosa)

  • Ohmishima (santuário lindíssimo com altar, com dois museus)

  • Onomichi (vila mais turística com teleférico para uma vista fantástica, 50 altares e um museu (fechado))

  • Nio Marina (alugámos um carro e fomos ver o Estreito de Naruto)

  • Kurashiki (de ferry para uma ilhota com praia e um micro festival de cerveja)

  • Naoshima (ilha completamente cheia de museus e obras de arte simplesmente na rua)

  • Takamatsu (cidade grande com museu de casas antigas)

  • Kusakabe, Shodoshima (pedreiras, volta de carro)

  • Kitaura, Shodoshima (museu da pedreira)

  • Shiraishi (praia com bar havaiano, infelizmente com alforrecas e o bar fechado. O bar japonês estava aberto, e até nos levaram a casa no carro deles)

  • Yuge (Umi no Eki com muitas instalações, até lixo a 30 ienes por saco)

  • Kazu, Kurahashi (o Jonathan veio instalar a Linda, a melhor praia de todas, museus giros)

  • Agenosho, Suo-Oshima (volta pela quinta de um agricultor ecológico, amigo do Kirk)

  • Otsushima (museu sobre os Kaiten, os submarinos kamikaze)

  • Chudo (fundeados)

  • Shin-Moji Marina (fundeados, a posicionar-nos para o Estreito de Kanmon)

Uma lista e tanto, portanto. Pelo meio havia uma cidade maior, Takamatsu, que também tinha aeroporto com ligação a Seul, o que deu jeito ao Arnold, porque ele queria voltar para casa passando por um amigo na Coreia do Sul. Aqui estava uma comitiva inteira à nossa espera, porque ficámos num cais novo destinado a superiates. Somos provavelmente o iate mais pequeno que alguma vez lá vai atracar, e com o nosso comprimento também não ficámos lá muito bem. Infelizmente éramos grandes demais para a marina e, já estão a perceber a ideia, se o limite é 15 metros, o limite é 15 metros, e com 17 metros, no Japão, não se entra.

As pessoas são em geral muito simpáticas e prestáveis por natureza; conflito aqui não é bem a ideia, e a forma como isso funciona é simples: toda a gente cumpre as regras. Quando se sai, leva-se o lixo de volta para casa. Que isto também seja assim na maioria das Umi no Eki é menos prático para nós – não podemos propriamente ir guardando tudo e depois levá-lo no avião. Portanto, há que adaptar-se um bocadinho. Pelo caminho cruzámo-nos duas vezes (em Hiroshima e em Naoshima) com um barco dinamarquês, o “Thor”, um Garcia 52, que faz as coisas de outra maneira: faz de conta que está na Europa. Pois em Naoshima estava no nosso lugar. Como ali só há espaço para duas embarcações de recreio, dissemos-lhe, simpática mas firmemente, que tínhamos reserva. Mas que podia ficar de braço dado connosco. Ainda nem estávamos amarrados quando apareceu uma senhora muito zangada do posto de turismo, de braços cruzados (o símbolo de “não”; “não” em japonês é “iie”, mas ninguém o diz, é falta de educação) e com um “no possible”, “go away”. E lá se foi ele, de rabo entre as pernas. Experimenta do outro lado da ilha, sugerimos-lhe. E foi lá mesmo que voltámos a encontrar o barco no dia seguinte. Uma história interessante, mas ele achava um agente uma parvoíce. Pois. Mas também não tinha percebido porque é que se vai a Naoshima: os muitos museus de arte. Tinha sido o Diederik a chamar-nos a atenção para eles na nossa última viagem de avião ao Japão; realmente muito bonitos e num sítio muito especial. Como era pleno verão e portanto calor demais, até deu para comprar bilhetes com 2 dias de antecedência. Nem o Kirk estava à espera disso.

Também por causa do calor, achamos nós, estava tudo muito sossegado. Não só nas vilas, mas também nos pontões. No total, encontrámos até agora 3 barcos a motor, 3 veleiros e um dinamarquês. E inúmeros barquinhos de pesca, que estão maravilhosamente no caminho. E quando os contornamos, é precisamente nesse momento que arrancam a toda a velocidade. Há alguns arrastões, mas a maioria são semiplanantes com motores Yanmar grandes e bem barulhentos. E de qualquer forma muito, muito tráfego mercante, com navios de cabotagem pequenos e maiores. Muitos ainda com motores diesel do tipo poc-poc-poc. Turistas só se veem em poucos sítios, nós sobretudo em Onimishi e em Naoshima. Aí até estivemos num restaurante com outros holandeses, e ainda encontrámos mais! De resto, muitos japoneses, chineses e coreanos. Turistas europeus, portanto, não se encontram muitos por estas bandas.

Achámos a paisagem muito atraente, uma espécie de meio-termo entre os fiordes noruegueses e as ilhotas suecas, com comida melhor e mais barata. Isto da comida é mesmo uma coisa aqui: nunca vi um povo que ligue tanto à comida. Até os franceses parecem amadores ao pé deles. Se bem que eles têm um fraco pela França: há cafés “franceses” por todo o lado, mas onde se comem noodles ou outra coisa japonesa. Ainda não comemos mal uma única vez; houve uma vez em que me calhou um copo sujo, mas a senhora que nos servia estava quase a desfazer-se com reumatismo, mal conseguia levantar os copos e não falava uma palavra de inglês, por isso deixei estar. A cerveja estava boa…

De resto, encontra-se todo o tipo de estados de conservação e degradação. Desde o ultramoderno, com as famosas sanitas com bidé incorporado, até ao velho “buraco no chão”. Mas mesmo quando é velho e gasto, normalmente está impecavelmente limpo. Vassouras velhas ao lado de uma casa? Sim, mas bem alinhadas em formatura. Muitíssima construção naval, incluindo navios porta-contentores mesmo grandes, mas também dezenas de estaleiros pequenos e maiores. As vilas estão a ficar vazias, nota-se bem: quem é novo vai para a cidade, para um emprego de escritório (e tem poucos filhos, por isso a população está a diminuir…)

Neste momento o iene oscila um pouco face ao euro, mas nós fazemos as contas a 180 ¥/€, o que nos dá um nível de preços muito simpático. Uma garrafinha de refrigerante na máquina automática (há uma a cada poucas centenas de metros) custa ¥ 150-200, portanto no máximo € 1,10. Um copo de cerveja bem servido num restaurantezinho, ¥ 600 = € 3,30. Um “set menu” (menuzinho completo) ao almoço, ¥ 1500 = € 8,16. A taxa de amarração para o nosso barco de 56 pés varia entre gratuito e, muitas vezes, ¥ 4000 = € 14,63. Em Hiroshima já foi a preços “europeus”, € 55 por noite.

De resto, na semana passada lá foi finalmente instalada a Linda, o novo cilindro hidráulico. O Jonathan revelou-se um americano habilidoso, daqueles que pensam em soluções. Vive na ilha onde estivemos, comprou lá uma casa com a mulher japonesa por € 1900… e entretanto já comprou mais duas, para alugar a turistas. Três casas por € 10.000,-

Para terminar, umas fotos para dar o ambiente…

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