Primeira semana no Japão: missão cumprida!
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Esta tarde está tanto calor na marina de Nio, onde chegámos logo a seguir ao almoço, que nos refugiámos no escritório da marina. Aqui podemos ficar regaladamente ao pé do ar condicionado até o restaurante lá de cima abrir. E finalmente tenho tempo e pachorra para escrever umas linhas…
Na segunda-feira da semana passada lá entrámos, exatamente à hora combinada, na Hiroshima Kanon Marina. A última noite no mar ficou de repente muitíssimo movimentada: barquinhos de pesca com holofotes enormes, navios mercantes a passar-nos rente às orelhas a cada poucos minutos e, lá pela meia-noite, quando atravessas um estreitamento do canal com a água a fervilhar de correntes, ainda por cima aparece nevoeiro! Mais uma vez muito contente com o radar, e por ter ensinado o Maarten a trabalhar com ele. Nessa noite os turnos de quarto foram um bocadinho desorganizados, mas claro que também nos estava a dar o nervoso miudinho da chegada. De manhã, de repente, estávamos a navegar no meio de uma paisagem! Com verde! E barquinhos e barcos! Muito especial depois de 4 semanas no mar em que vimos, literalmente, um único porta-contentores. Mesmo junto à costa estava surpreendentemente calmo. E depois entras no IJsselmeer cá do sítio e pumba! Cheio!

Quando chegámos ao pontão pudemos acenar à Marion e à Ella, que já estavam à nossa espera. Mas ainda não nos podíamos aproximar delas; primeiro as formalidades. A Tomoko, da Konpira (em representação do agente), já estava à nossa espera. Também tinha saído cedo da cama, porque teve de vir lá de Fukuoka. Ainda mal tínhamos o barco amarrado e já os primeiros quatro funcionários estavam a bordo. Primeiro foi preciso deixar satisfeita uma senhora do Controlo Animal. Preencher rapidamente um formulário (que eu já tinha preenchido e enviado, mas enfim) onde declarava não ter animais a bordo, uma espreitadela rápida lá para dentro e pronto, estava despachada. A seguir foi a vez da alfândega, juntamente com a guarda costeira. Teve muita piada, porque a alfândega afinal não estava nada interessada em saber se tínhamos carne, fruta e legumes a bordo. Tínhamos deitado fora a carne picada e o frango americanos, tal como as cebolas (sobravam muitas) e mais uns restos de legumes, e uma dúzia de latas de uma cerveja panamiana “light” intragável, porque, segundo o agente, se tivéssemos álcool a mais, ou carne e legumes etc., levávamos com elas. As salsichas maravilhosas do Panamá ainda as tínhamos, mas como estavam no congelador pensámos em ver no que dava. Pois bem, não havia problema nenhum, desde que não as levássemos para o Japão (ou seja, para fora do barco). Okay… O álcool já foi visto com mais atenção. Depois foi a vez dos medicamentos. Mostrei-lhes a caixa de primeiros socorros com as coisas “isto é para emergências” e os sacos grandes da Marion e meu. Bem, destes últimos escolheram um (para a tensão alta, que tomo por causa do efeito secundário nos rins). Foi depois testado num aparelho todo complicado. Com manual de instruções; era mais do que evidente que era a primeira vez que aquela gente fazia aquilo. Além disso tive de indicar todas as camas. Foram todas “swabadas” com um toalhete, toalhete para dentro de um saquinho, número em cima (#1, #2, #3) e a seguir escreveu-se também a giz no chão (#1, #2, #3) (com autorização do skipper, claro está).
Entretanto os dois senhores importantes, os dos três galões, digamos assim, estavam muito bem refastelados no cockpit à sombra, comigo no meio, a disparar-me perguntas. Por onde é que eu tinha andado, e se algum desses sítios era criminoso ou perigoso? Não, eu não gosto de perigo. Pelos vistos era a resposta certa. O outro senhor atirou logo a seguir: se o nosso VHF funcionava bem? Sim, funciona bem. Então que o deixasse sempre ligado e em escuta no canal 16! Sim senhor, assim farei.

Uns bons 80 minutos depois tinham terminado, e eu ainda tive de ir lá dentro tratar da imigração. O Arnold e o Maarten já lá tinham passado antes. As duas pessoas da imigração tinham montado um escritoriozinho provisório, com aquele scanner de cara e de impressões digitais que hoje em dia se vê por todo o lado. Simpatiquíssimos, e 2 minutos depois estava despachado! Finalmente podia voltar a abraçar a Marion (e a Ella)! A Tomoko estava impressionada: nunca tinha sido tão rápido! Toca a ir num instante ao restaurante italiano da marina, porque estávamos a morrer de fome. Comida japonesa não tinham grande coisa, mas a pizza estava ótima, e a cerveja era do Havai?!
À noite fomos jantar e dormir a Hiroshima; primeiro uma cervejinha na primeira izakaya que nos apareceu e, já agora, vá lá, um petisco para acompanhar… Delicioso, na rodada seguinte mais uns petiscos, e quando dás por ela já lá vão umas quantas cervejas e peixe fresquíssimo e petiscos mais do que suficientes! No dia seguinte andei às voltas com outra senhora do agente para arranjar azoto para o cilindro hidráulico (a que a Ella resolveu chamar Linda). É aí que esbarras no “outro” Japão: o das regrinhas. Como não sou uma empresa com quem já façam negócio, os fornecedores de gás não querem fornecer. Nem através do agente. Pela Amazon até há qualquer coisa, mas outra vez com um conector diferente do habitual e em garrafinhas pequenas e caras. No fim a Marion encontrou alguém que lá acabou por responder e que via uma maneira de resolver aquilo. Afinal este trabalhador independente tem um serviço na Tasmânia na semana seguinte e pode lá comprar facilmente os conectores e as mangueiras necessárias! Curioso como as coisas (não) funcionam aqui.
Entretanto percebemos que aqui afinal não há vento, por isso o azoto pode bem esperar pela próxima visita. Aí podemos pôr a Holanda e a Alemanha a trabalhar. Porque na Holanda entras num fornecedor de gás, compras uma carga, pedes uma garrafa emprestada, segues para uma loja técnica que trabalhe com hidráulica, compras um pedaço de mangueira, mandas cravar dois conectores por umas dezenas de euros e já está. Só que levar esse gás no avião já não é bem a mesma coisa, e as tais garrafinhas pequenas têm conectores que nós não temos. Portanto, todas as fichas no senhor que foi para a Tasmânia.
No dia seguinte a Marion tinha arranjado uma guia para nos mostrar a zona à volta do hipocentro da bomba atómica. Foi mesmo boa ideia, porque a certa altura ela levou-nos até um edifício de um banco que tinha sobrevivido em grande parte, mas nós sozinhos ter-nos-íamos ficado pela porta ou, quando muito, dado uma voltinha lá dentro. Só que afinal o museu era na cave! Também fomos a um edifício escolar que serviu na altura como uma espécie de posto central de informações. Ali ficaram escritas nas paredes enegrecidas pela fuligem mensagens de pais à procura dos filhos, ou vice-versa. Tudo foi caiado por cima nos anos seguintes, mas durante um restauro descobriu-se que ainda havia ali alguma coisa por baixo. Imagens comoventes de pessoas que, 50 anos depois, ainda viram uma mensagem da mãe, da irmã ou de outro familiar. Por fim, claro, o grande museu. De fazer chorar as pedras da calçada, naturalmente. O sofrimento foi enorme, e sobretudo depois. Ninguém sabia o que era “fallout”, e por isso pessoas queimadas, com uma sede insuportável, abriram a boca quando a chuva negra começou a cair umas horas depois da bomba. No fim também percebemos que cada um de nós tinha visto coisas diferentes. Portanto uma visita, na verdade, não chega.


Depois de uns dias em Hiroshima despedimo-nos do Maarten e agora andamos os quatro de barco pelo “Mar Interior de Seto”, digamos que um IJsselmeer, mas rodeado e salpicado de ilhas e ilhotas de todos os tamanhos, e com uma área equivalente a meia Holanda. Ou seja, contando com as ilhas, bem maior ainda. Depois de Mitarai, Ohmishima e Onomishi chegámos a Nio. Vemos templos e santuários, visitamos museus, comemos que nem uns alarves e é possível que de vez em quando também bebamos uma cervejinha. A época das chuvas acabou agora mesmo, e a seguir vem um mês inteiro de muito calor e humidade. Que maravilha!
Vou só pôr aqui rapidamente mais umas fotos e talvez da próxima vez volte a falar dessas ilhas, porque a cerveja está a chamar por mim!


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