Dia 20 do Havai ao Japão: Conversas com o agente
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Pois é, o tempo voa. Amanhã já faz três semanas que andamos no mar! Se bem que, por causa da linha de mudança de data, perdemos um dia pelo caminho: no Havai, a hora do café ou do aperitivo nos Países Baixos só chegava 12 horas depois. Agora é precisamente o contrário: 9 horas antes! Estou a escrever isto no sábado à tarde, às cinco menos cinco, e nos Países Baixos são só 17 - 9 = 8 da manhã.
Hoje não vou cometer o erro de ligar à Ella ou à Marion à hora do nosso aperitivo, porque ontem à noite foi a abertura das Tall Ships Races e a Marion ganhou, e muito merecidamente, a primeira edição do Prémio Cultural Nathan Hornstra! Em si, uma circunstância triste, porque o Nathan faleceu na semana passada em Harlingen (ou, para ser exato, em Sexbierum). Mais alguém que conhecíamos. O Nathan estava comigo nos Lions e, entre outras coisas, foi até há pouco tempo tesoureiro das Tall Ships Races. Foi aí que a Marion trabalhou muito com ele. É bonito que a direção homenageie agora o Nathan criando este prémio e entregando-o depois à Marion!
Quem segue o tracker já reparou que andamos a ziguezaguear com algum custo. Tem tudo a ver com o tempo. Sempre soube que navegar para o Japão no verão traz consigo o risco de tempestades giratórias (que aqui não se chamam furacões, mas tufões). Por isso o planeamento tinha margem para dar uma volta maior ou para deixar a tempestade passar à nossa frente. Há uns oito dias já tinha visto, na carta meteorológica que consulto duas vezes por dia, uma coisinha que me fez pensar: oxalá isto corra bem. E não é que, dia após dia, aquilo foi crescendo cada vez mais? Confesso que fiquei orgulhoso quando só ao quarto dia um meteorologista japonês falou disso no Reddit: ou seja, eu tinha visto primeiro. E só dois dias depois é que o Joint Typhoon Warning Center começou a emitir avisos. O JTWC é uma colaboração entre a US Navy e a Air Force; pelos vistos, o simples facto de colaborarem já é digno de nota. Enfim, juntamente com os serviços meteorológicos japoneses, estamos naturalmente de olho nele.
O tufão segue em direção a Guam e depois a Taiwan e à China. Portanto, não nos afeta muito. Está impedido de se desviar para norte (coisa que estes bichos adoram fazer) por uma enorme crista de altas pressões que se estende do Japão para leste. Isso deixa-nos duas opções: continuar a navegar perto do tufão, com eventualmente vento a mais e certamente ondulação alta, ou atravessar as altas pressões a motor, na esperança de apanhar algum vento do outro lado. Para manter o risco no mínimo, escolhemos a segunda opção. Isto significa que o motor está ligado desde esta manhã e que, com sorte, esta semana poderá descansar uns dias, para depois voltar a trabalhar até ao Japão. Paciência: antes isto do que correr riscos, que não é coisa de que gostemos.
De resto, ando muito ocupado com o agente, o Kirk, e a sua funcionária Mari. Tínhamos combinado navegar até Osaka, mais precisamente até à marina Shin Nishinomiya Yacht Harbor (新西宮ヨットハーバー), porque lá seria possível tratar do desembaraço de entrada. Mas, pensando melhor, seríamos mais ou menos o primeiro veleiro de sempre a fazê-lo ali, ou pelo menos os funcionários todos mostraram-se bastante complicados. Para começar, ao fim de semana não era possível dar entrada. Depois descobriu-se ainda que a marina fecha à terça-feira (faz sentido), mas que isso implicava que também não podíamos chegar à terça. De comum acordo, mudámos então para a Hiroshimakanon Marina (広島観音マリーナ). Ali podemos chegar ao fim de semana e também na terça-feira de folga. Mas também aqui a guarda costeira quer saber a que horas estaremos na boia de aterragem da primeira passagem (a umas 120 milhas da marina), e os funcionários todos querem, com 7 dias de antecedência, uma hora provisória e, no máximo 48 horas antes, uma hora definitiva. E depois é para cumprir com uma margem inferior a cinco minutos. Ufa.
Depois de já ter enviado os dados habituais, como os documentos do barco, o seguro, cópias dos passaportes, etc., esta semana foi a vez de mais cinco formulários:
- um formulário sobre a gripe das aves (em como não a temos): Feito
- um formulário sobre os bens da tripulação (dinheiro, bebidas): Feito
- um formulário sobre o Ébola (em como não o temos e também não estivemos perto do Congo): Feito
- uma declaração marítima de saúde: quantas pessoas morreram de doença a bordo durante a viagem: Feito
- uma declaração do navio sobre artigos problemáticos a bordo, como armas e bebidas alcoólicas: Ah, pois
Primeiro tinha declarado: 5 garrafas de vinho, 5 litros de cerveja (a última caixinha de “Kees 60”), meia garrafa de whisky e 2700 ml (três garrafas) de rum. Para três pessoas não me pareceu nada de especial. Ah, pois. Afinal era, provavelmente “demasiado” para entrar “de borla”. E as alternativas são: ficar tudo fechado a sete chaves até sairmos do Japão, ou pagar direitos. E ambas dão sobretudo muita trabalheira de que ninguém precisa. O curioso é que, apesar das regras claras (10 kg por pessoa não é problema), na prática existem limites mais baixos, só que ninguém sabe bem quais são. Como as garrafas abertas não contam, estamos agora a despachar a cerveja (hic) e a abrir o rum (o whisky já estava aberto). Assim a Marion ainda tem uma boa garrafinha de vinho quando chegar. Já agora, a “Kees 60” afinal está bem fora do prazo, por isso ainda está em discussão se a vamos beber ou não. A DIPA da Brouwdok que também temos tem mais álcool e ainda está ótima, por isso não estamos nada mal.
Por falar em comer e beber… porque, além de ler livros e da programação do barco (Kees) ou de um novo projeto secreto (Maarten), e do tempo, claro, é isso que nos ocupa. Por exemplo, o Maarten tem muito jeito para preparar ananás. Massacrá-lo, na verdade. Infelizmente só filmámos da segunda vez, e aí ele conteve-se, que pena.
Além disso, parece que não podemos levar para terra legumes frescos (ok, já estão quase a acabar) nem fruta (talvez uma dose dupla de laranjas por dia), nem carne fresca, nem sequer congelada. Felizmente o queijo não está na lista, por isso não temos de deitar fora o queijo industrial americano que está no congelador. Cozinhado não há problema, por isso guardamos para o fim os restos do rendang que a Marion esteve a preparar no Panamá com 35 graus. Seja como for, os restos só vão borda fora na última noite, claro.
De resto, agora já todos sabem fazer arroz e temos variedade de pratos: os pães de hambúrguer acabaram e agora comemos coisas como massa com molho de tomate, salsichas com arroz, etc. Só de burritos é que ainda há que fartar. Em suma, todos os dias comemos muito bem.
Ah, e para terminar: o segredo do pão também já está desvendado: a farinha americana tem melhorante. Portanto, basta usar um bocadinho dessa farinha (seja branca ou integral) e o pão cresce que é uma maravilha!
E agora, a mesmo última novidade: há três dias vimos um navio!

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