Ala Wai Harbor e o DOBOR

· Cruising, Pacific, 2026

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Depois de chegarmos, fazer a entrada foi canja. Quem chega de barco ao Havai tem de tratar de três coisas: apresentar-se à Customs & Border Patrol (CBP), obter uma declaração agrícola e, claro, apresentar-se ao capitão do porto. Ao contrário do que eu esperava, com a CBP não houve problema nenhum. Com a última, sim.

A forma mais fácil de fazer a entrada é online, com a app “CBP Roam” no telemóvel, porque assim podem falar connosco por videochamada. Depois de me registar, passado menos de um quarto de hora pediram-me para abrir o videochat. O estranho é que não se vê o agente. Ele ou ela vê-nos a nós, isso sim. Tudo bem: mostrar as caras para comparar com as fotografias do passaporte e uma voltinha pelo barco. O Joey foi profissional, super simpático e muito atencioso. Passou comigo o formulário CBP 1300 de uma ponta à outra, porque é óbvio que aquilo não foi pensado para veleiros mas sim para navios de carga. Em menos de uma hora estava tudo tratado, e de uma forma muito agradável. Deu-me o número direto e, se houver alguma coisa, posso sempre ligar. Impecável.

Mas ainda tinha de vir uma colega dele tratar da parte agrícola. Pelo que tinha lido online, imaginava que ela ia inspecionar o barco todo e levar o lixo que tínhamos juntado direitinho, a troco de 200 dólares. Mas afinal quando é que ela vem? Só ao terceiro dia é que entrou em contacto, e seríamos o terceiro cliente da ronda. Só que nós queríamos muito ir a Pearl Harbor nesse dia, por isso liguei mais uma vez e afinal ela estava literalmente a 20 metros do barco. Não, não precisava de vir a bordo. Podia preencher aquilo ali mesmo no pontão. Num instante ficou escrito que não tinha sido feita inspeção nenhuma e que, mesmo assim, estava tudo em ordem. O lixo era melhor deitarmos fora noutro sítio, porque em Oahu isso só se fazia através de empresas e, na opinião dela, era caríssimo. A seguir recebi uma data de dicas sobre que restaurantes chineses eram bons, onde podia ir ao barbeiro (pelos vistos achou que fazia falta, e tinha toda a razão!) e mais um monte de sugestões locais. Uma conversa estranha, portanto, mas muito simpática.

O nosso barco vizinho. Então e com isto, não fazem nada?!

Com o capitão do porto a conversa foi outra. Dei com uma senhora que claramente tinha um prazer enorme em ser funcionária pública. Afinal, o DOBOR, para quem trabalha, é uma entidade estatal. Imaginem a matrioska atrás do balcão da companhia telefónica estatal russa em 1970 e estão perto. Tudo era um suspiro e uma complicação. E era mesmo, porque nós não somos dos EUA, pois não. E sim, os papéis do barco estão numa mistura de neerlandês e inglês. Suspiro. E no seguro não dizia quando era válido. Dizia, sim, minha senhora: primeira frase do terceiro parágrafo. E eu tinha de mandar fazer uma vistoria e ainda tinha de fazer uma “buoy run”, ou seja, navegar até à primeira boia de canal e voltar para a marina, na presença (em terra, suponho?) de alguém do DOBOR, para verem que o motor funcionava e que sabemos navegar. Minha senhora, tenho aqui o despacho de saída do Panamá, 5000 milhas num mês, isso não devia chegar? Inflexível. E eu que estava convencido de ter lido algures que não era bem assim. Despachado com uma lista de vistoriadores, porque o deles só podia no dia 10, e com a declaração do seguro recusada por não indicar a área de navegação, dei por mim cá fora outra vez ao fim de uns três quartos de hora. Lá fora encontrei uma senhora da Califórnia que tinha chegado uns dias antes e que tinha passado pelo mesmo: já tinha sido recusada pela terceira vez e esperava conseguir despachar aquilo durante a semana. Segundo ela, enquanto os papéis não estiverem aprovados paga-se uma multa de 50% sobre a taxa de amarração. Quanto é que isso dava ninguém sabia dizer, porque primeiro o barco tinha de ser medido. De dar em doido. Mas pronto, com 20 dólares por dia de taxa normal para o barco, não estava assim tão mal. Aha, então estamos a falar de uns 10 dólares por dia. Fico “ilegal”, pronto. A isto juntam-se ainda 10 dólares por pessoa e por dia por dormir a bordo.

Entretanto, até sexta à tarde, arranjei uma nova declaração do seguro e pus o Claude AI a investigar como era afinal a coisa. Ora bem: se ficarmos menos de 30 dias podemos, afinal, obter uma licença temporária e não é preciso vistoria nem buoy run. Mas o escritório do porto, claro, fecha ao fim de semana… Por isso, na segunda-feira, de coração apertado, lá tentei outra vez. Outra senhora, que insistia que era mesmo obrigatório. Depois de lhe dar a ler as cópias do próprio regulamento do porto, onde dizia que não era preciso, desapareceu escritório adentro. 20 minutos depois voltou e sim, afinal podia obter uma temporary mooring permit, mas só depois de fazerem uma inspection nos termos do §13-231-8, e isso custava 40 dólares. Ora, eu leio aquilo como estando eles autorizados a fazer uma inspeção para uma temporary mooring license, mas sem ser obrigatório, e por mim dispensava bem. E mais uma vez: acabei de fazer 5000 milhas, o barco não pode estar assim tão mal. Além disso, os papéis do seguro diziam agora que eu estava coberto para o percurso Panamá - Havai - Japão, mas não diziam que isso também valia para o Ala Wai Harbor. Quando contrapus que, em viagem, não vou combinar com a seguradora com um ano de antecedência em que marinas vou parar, a resposta foi: pois, desculpe, mas são as regras. Estava a ferver. Sim, ela também achava as regras rígidas, mas não podia fazer nada. E depois o gato saiu do saco: se eu ia partir no fim de semana seguinte, o melhor era ficar ilegal até lá, era o mais prático. Francamente.

Entretanto investiguei mais um bocado: se admitirem que temos autorização para estar ali amarrados (ou seja, o lugar está ok) mas a inspeção ainda não foi feita, o problema é deles. Só que, se ficarmos menos de um mês e por isso quisermos pagar ao dia, há um acréscimo de 30%. Mais vale pagar logo os 50%.

Resumindo, haverá quem não se importe com isto, mas eu acho que está mesmo abaixo de cão. Pelos vistos não aparecem (ainda) visitantes de além-mar, ou quase nenhuns?

Por isso, aconselho todos os velejadores que venham a seguir a armarem-se de muita flexibilidade ou então a escolherem outro porto.

Mais um exemplar muito bem estimado; reparem no mastro de vante e na forma como está preso!

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