Dia 19 Panamá–Havai

· Cruising, Pacific, 2026

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Clipperton já vai muito lá para trás na nossa memória, por isso está na altura de contar como as coisas estão a correr. O plano era que, depois de Clipperton, navegássemos sempre em ventos alísios de nordeste estáveis, mas a realidade é (foi) mais teimosa. Abaixo fica o percurso desde então.

Depois da ilha (a do circulozinho) pudemos orçar e a velocidade subiu (azul < 5, verde >= 5, amarelo >= 7 nós, vermelho >= 9 nós). Para o leitor mais atento, sim: o tracker foi melhorado e agora também mostra a velocidade e, desde há uns dias, também o vento, se fizerem zoom suficiente.

Dois dias depois, a meio do dia, chegou um aguaceiro por trás e o vento rodou 180 graus de um segundo para o outro! Como se vê, andámos ali bem aos papéis. Levou umas doze horas até o vento voltar mais ou menos ao sítio. Desde o Panamá que não apanhávamos chuva digna desse nome, mas nesse dia ficou tudo compensado.

Nos últimos dias temos rumado sobretudo a oeste, primeiro ainda a subir um bocadinho. Isto para apanharmos o tempo o mais estável possível. Tudo indica que vamos chegar a Honolulu a 3 ou 4 de junho.

Os atobás continuam a apanhar boleia; agora são seis, e há três dias que perceberam que atrás do mastro não são tolerados.

Atrevidos ou parvos? Dá para agarrar os atobás pelo pescoço
Pôr do sol com 4 atobás na retranca e junto ao púlpito

Além disso, tivemos durante três dias uma andorinha perdida a bordo. Ao início não parava de voar à volta, mas a certa altura ganhou coragem para pousar e chegou mesmo a ser vista em cima do peito do Arnold. Infelizmente, no dia seguinte estava morta no bote auxiliar. Demasiado fora de rota: este passarinho de terra só aguenta 4 dias sem comer e aqui não há nada (experimentámos fruta, mas não era bem aquilo). Ah, e o Grilo Falante também nos deixou. Infelizmente, ainda não o encontrámos.

Depois de Clipperton acabou-se o pão que tínhamos trazido, por isso agora coze-se todos os dias um pãozinho fresco na máquina do pão. Corre muito bem, desde que se use a farinha certa. Com a farinha integral panamiana não há nada a fazer: experimentei, mas acabei por ter de cozer outro pão. No dia seguinte tentei outra vez com uma percentagem menor, mas é simplesmente uma coisa muito esquisita. Felizmente ainda temos a bordo farinha integral suficiente de Tenerife (obrigado, KJ + Tan!) e muita farinha branca.

Os legumes do Panamá já se acabaram e/ou estragaram; resta-nos meio alho-francês. Até metade das cebolas grandes que comprámos lá já foi borda fora, mas estavam num saco de plástico que, embora tivesse uns furos, se calhar tinha poucos? Estranho, as cebolas “velhas” de antes duram meses. Também têm um aspeto um pouco diferente, com outra casca.

Temos um sistema de quartos que roda todos os dias. Oficialmente também de dia, mas, tirando o primeiro, levamos isso de forma muito descontraída. Ou seja, às 20:00 começa o primeiro quarto da noite, à meia-noite o segundo e às 04:00 o terceiro. Todos os dias rodamos um quarto, portanto no primeiro dia ficas, por exemplo, com o das 20:00, no dia seguinte com o das 04:00 e no terceiro dia com o das 00:00. Quem faz o primeiro quarto cozinha e trata do aperitivo às 17:00; o jantar é entre as 18:00 e as 19:00. Quem faz o terceiro quarto lava a loiça. O ritmo já está bem entranhado e entretanto também já dormimos o suficiente, por isso não andamos cansados nem nada que se pareça.

Ontem, o Arnold e eu estávamos no cockpit a ler tranquilamente um livrinho quando, de repente, com um estrondo, a retranca Hoyt do estai se partiu outra vez. Desta vez foi uma clássica rotura por fadiga na parte em inox do cilindro hidráulico. Provavelmente o desgraçado ano passado também não ajudou. E talvez até tenha agravado as coisas, porque afinal a cabeça sobe e desce com bastante dificuldade. Primeiro amarrámos tudo e enrolámos o estai. Depois substituímos a escota do estai por uma que passa por um olhal de reenvio clássico no carril da vela de tempestade. Foi surpreendentemente fácil e, no rumo atual, a perda de velocidade é mínima.

A seguir, com o Rudolf e o Arnold, desmontámos o cilindro para ser mais fácil tirar-lhe as medidas. Mandei um e-mail ao representante holandês, que também conhece o barco, mas claro que isto aconteceu num sábado e segunda-feira ainda por cima é feriado de Pentecostes!

A haste de inox partida dentro da cabeça preta

Enfim, é o que é, e podemos continuar a navegar na mesma. Os tanques de água estão atestadinhos com água do dessalinizador, os tanques de gasóleo ainda estão longe de vazios e comida também temos que chegue. O barco continua a andar bem. Hoje vamos mimar-nos com lençóis lavados.

Faltam 1738 milhas para o Havai, até à próxima!

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