Dia 12 do Panamá ao Havai
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Caramba, mais 6 dias que passaram a voar! E vocês estão, claro, curiosos por saber tudo o que vivemos. Na verdade, resume-se em poucas palavras:
- Dormimos
- Comemos
- Navegámos 5 dias com vento muito fraco pela popa, em “borboleta” (em neerlandês dizemos “melkmeisje”, “leiteira”)
- Desde ontem que o Yanmar voltou a roncar. Desde esta manhã, com o Code 0 também. Isso dá-nos mais 0,5 a 1 nó de velocidade.
- Ainda temos de fazer 2 dias a motor e à vela.
Para os mais resistentes, aqui fica a versão longa…
O ambiente a bordo está ótimo, apesar do calor. Felizmente, hoje até não está mau de todo. Ontem estávamos mesmo todos no limite. 35,4 graus Celsius já não tem graça nenhuma. E ainda por cima com um céu azul sem uma nuvem. O Rudolf e eu fomos, depois do almoço, passar uma hora a afinar as velas e a seguir ficámos completamente “KO” com o calor. A necessidade não tem lei, por isso tivemos direito a uma cervejinha panamiana, que com este calor soube divinamente. As cervejas panamianas parecem ter todas uns 4% de álcool, portanto bem levezinhas. À noite era a vez do Arnold cozinhar, e saiu da cozinha literalmente a ferver. Impossível. Como disse, hoje estão “só” 32 graus, por isso já está um bocadinho melhor.

Na manhã a seguir a ter escrito o último texto, fomos dar uma olhadela aos painéis solares. Agora percebo como é que no século XIX se raspavam dezenas de metros de guano (cocó de pássaro) das ilhas por aqui. Meu Deus, a quantidade de porcaria que 2 ou 3 pássaros conseguem fazer numa só noite. E ainda por cima custou imenso a sair. Desde então quase não os vemos pousar nos painéis; parece que preferem algo que já esteja branco.
O Grilo Falante é indestrutível. Já lhe dediquei meia lata de “Pief Paf”. Primeiro na caixa dos cabos no cockpit, depois no TR. Ontem à noite, depois de 2 noites calado, voltou de repente a ouvir-se no convés; acho que agora está na caixa da quilha. Aquele Pief Paf devia mesmo resultar, é para todos os insetos rastejantes e afins. É fabricado algures perto de Roterdão, mas destinado às ilhas das Caraíbas. Altamente cancerígeno e normalmente funciona na perfeição contra a bicharada. O nosso Grilo deve ser da espécie que sobrevive ao Armagedão.
A comida. Hoje acabámos o nosso último pão de fábrica do Panamá. Ontem já estava tão farto que de manhã torrei-o com um ovo estrelado por cima e ao almoço fiz tostas com aquele queijo falso americano. Se bem que este era da Président e dizia ser Cheddar. Hmmmm. Mas até era bom. A partir de amanhã, portanto, fazemos o nosso próprio pão. Já estou ansioso: pão fresco. Ao jantar fazemos qualquer coisa com massa, arroz ou feijão. Ou, e isso foi um sucesso: hambúrgueres com tortilha de queijo e ovo (a versão espanhola). Ainda temos hambúrgueres para duas vezes, mas tortilha só para mais uma. Hoje à noite outra vez feijão, com muitos legumes, porque nos esquecemos um bocado dos alhos-franceses. Uma latinha de atum também, acho eu, cebolinhas, molho de tomate, pimento, alho. Em suma, até comemos muito bem, mas acho que daqui a duas semanas e meia vou comer com uma vontade enorme um enorme BIFE americano!
Quanto ao tempo, não nos podemos queixar, porque navegámos 5 dias deliciosamente tranquilos com a vela de proa do lado de barlavento. Isso corre lindamente desde que o vento não desça abaixo dos 9 nós, porque aí a pressão na vela já não consegue segurar a retranca. E então a velocidade cai para 3 nós. A previsão trazia também muitos avisos de trovoada. Bem, não diz propriamente “trovoada”, mas sim “índice CAPE”, que é uma espécie de medida da quantidade de energia que há na atmosfera. Mas nunca tivemos nuvens dignas de registo por perto e, portanto, também nenhuma trovoada. Vimo-la quase todas as noites algures muito, muito ao longe (mais de 40 milhas), mas não junto a nós. Ainda bem. A prometida descida de temperatura ainda não chegou, mas deve acontecer algures na próxima semana, quando entrarmos nos alísios. No Havai parece que estão 25 graus, o que nos parece ótimo.
Tivemos uma pequena “graça” na quarta-feira de manhã. Eu ainda estava deitado e ouvi um helicóptero passar duas vezes! Isto a umas 300 milhas da costa? O Arnold foi pesquisar e afinal era o helicóptero de reconhecimento de um atuneiro mexicano. Pelos vistos éramos especiais o suficiente para nos darem uma boa vista de olhos.

Na quinta-feira, o acontecimento da noite foi o Rudolf acordar de repente sobressaltado. Estava um rabo-de-palha-de-bico-vermelho (o neerlandês é fantástico a colar palavras: lá diz-se “roodsnavelkeerkringvogel”, tudo junto) no cockpit, com um peixe que não lhe caiu bem, ou que era grande demais? Fosse como fosse, na manhã seguinte estava outra vez tudo uma porcaria…

De resto, estamos todos a entrar no “flow”. Não conheço uma boa palavra em neerlandês para isto e o Google Translate também diz “flow”. Quer dizer que os dias se vão encadeando uns nos outros. Já não sabemos bem que dia é e os dias são todos mais ou menos iguais. O bom disto é que não “tens” de fazer nada, porque também não podes fazer nada, a não ser ir vigiando o barco e tratar do escasso trabalho de navegação. O que ajuda é que o tráfego marítimo está a “extinguir-se”. Anteontem desapareceu o último do ecrã e já há 2 dias que não se vê navio nenhum.


Ontem decidimos fazer um pequeno desvio até um certo sítio no meio do oceano, mas por enquanto guardo isso para mim. Os entendidos podem ir espreitando.
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