Dia 6, do Panamá ao Havai
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Hoje é domingo, 10 de maio. Como partimos na terça-feira, 6 de maio, já vamos no nosso 6.º dia de mar. Por volta das 14h00 completamos 5x24 horas de viagem. Até ontem à tarde fizemos tudo a motor. O Yanmar lá vai despachando as horas a ronronar, sem problemas nenhuns. Como queremos guardar uma reserva de gasóleo e o vento mais à frente também não ia chegar mais cedo, não tínhamos pressa nenhuma. A 1500-1600 rotações e com 5 a 6 nós de andamento, fomos avançando a bom ritmo.
Por vezes está mesmo muito calor: a água do mar está a 31 (!) graus. Quando o sol aparece, é um forno. Alguns dias estiveram agradavelmente nublados e aí até se aguentava bem. Cozinhar é sobretudo um desafio. E agora que vamos à vela, a maioria das escotilhas tem de ficar fechada, o que ainda aquece mais o ambiente. Felizmente, daqui a uns dias a temperatura baixa para uns 28 graus. E perto do Havai “apenas” 24. Enquanto houver água suficiente nos tanques (e com tempo calmo podemos produzir mais com o dessalinizador), há direito a duche todos os dias. É isso que torna a coisa suportável.

Todos os dias ponho a correr um programa que, algures na nuvem, calcula qual é a melhor rota para nós. Há velejadores que usam o Windy para isso, mas não chega aos calcanhares do PredictWind. Desde este ano até tenho a bordo uma “caixinha” deles. Funciona como router de internet, guarda os dados de navegação do barco e envia-os para a Nova Zelândia. Lá é criado um perfil de velocidades, que vai sendo afinado a cada milha que navegamos. Assim ficam a saber quanto anda o Merrimac à vela e a previsão fica cada vez mais precisa. Chamam-lhe “IA”, mas parece-me exagero. Com um conjunto normal de filtros e umas médias também lá se chega. Seja como for, funciona às mil maravilhas. Na terça-feira disseram que teríamos vento no domingo de manhã e, não é que é domingo de manhã e temos vento?!

De resto, almoçamos, fazemos o aperitivo e jantamos todos juntos todos os dias. O pequeno-almoço, o Arnold e eu saltamos; o Rudolf come uma taça de iogurte (mais sobre isso da próxima vez). Às cinco em ponto petiscamos umas batatas fritas, uns amendoins ou um bocadinho de queijo/chouriço com uma cerveja, ou um refrigerante. Depois, quem faz o primeiro quarto vai cozinhar e, depois do jantar, o terceiro do turno lava a loiça.
Nos dois primeiros dias comemos refeições que a Marion tinha deixado cozinhadas; depois tivemos mesmo de começar a cozinhar nós, porque o stock de curgetes (courgettes) era enorme e apodrecem depressa. Infelizmente já tivemos de mandar quatro borda fora. Com a melancia também não devíamos ter esperado até ao 5.º dia: já estava em plena fermentação e sem graça nenhuma. É aqui que se paga o facto de não termos espaço suficiente para guardar tudo no frio. Agora que já se comeu alguma coisa, cabe tudo à justa. Talvez assim corra melhor. As cenouras, as cebolas, as laranjas e as maçãs aguentam-se bem fora do frigorífico. Esta tarde vamos experimentar um ananás!
De resto, lemos, e o Arnold também vê filmes no telemóvel. E eu ando com o Claude a renovar a automação do barco. O software já tem 16 anos e precisa de uma remodelação a fundo. Para isso dá mesmo jeito a minha nova linguagem de programação preferida, o “Rust”. Graficamente já tem outra vez um ar moderno e também estamos a trabalhar em funções novas. Por exemplo, os ecrãs já passam automaticamente para o modo dia e noite, e o brilho também é ajustado. Isto último ainda precisa de uns bons acertos.

Já agora, temos mais habitantes a bordo além do Arnold, do Rudolf e do Kees. Há um grilo, que entrou algures no Panamá e passa a noite inteira a cantar, mas que é impossível de encontrar. Estamos curiosos para ver se ele (ou ela) chega ao Havai, e se depois teremos de declarar aos fiscais da segurança alimentar: anda por aí um grilo, apanhem-no se conseguirem! Além disso, ontem atreveram-se pela primeira vez a vir a bordo uns atobás-castanhos. O nome inglês, booby, vem da palavra espanhola bobo, “estúpido”. Isto porque já naquela altura tinham o hábito de pousar nos navios, onde eram facilmente apanhados e comidos. É preciso mesmo abanar-lhes uma adriça à frente do bico para largarem as cruzetas. Mais tarde tentaram no púlpito, onde agora está uma escota pendurada por cima para que não se consigam instalar confortavelmente com aquelas patas espalmadas. Porque é que preferimos não os ter cá? Porque borram tudo. Fomos avisados pelo Rudolf e também pelo Pitou (Liselotte e Machiel)!
Até agora mantivemos um rumo entre WNW e NW, navegando mais ou menos paralelos à costa. Agora que o vento chegou até nós, seguimos quase a direito para oeste; daqui a duas semanas voltamos a WNW. Faltam 4040 milhas até Honolulu!
Quando nos lembrarmos de mais alguma coisa para contar, segue a próxima mensagem…
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