Cartagena, San Blas e Panamá
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Depois do calor brutal de Cartagena, já estávamos a precisar de voltar a velejar um bocadinho. Dia e meio antes avisei o agente de que queríamos sair às 0600 da manhã. E assim, de manhã, lá veio a assistente buscar os passaportes. Podia habituar-me a isto de ter um agente. Na última noite fomos jantar mais uma vez ao Sr. Miyagi. Fomos recebidos com imenso entusiasmo pela dona (que, diga-se, tinha um ar muito europeu) e pelo chefe de mesa. A comida estava ainda melhor do que na sexta-feira, portanto tudo perfeito.
Ao fim de um quarto de hora entraram uma mãe e uma filha holandesas, que ainda por cima foram sentadas mesmo ao nosso lado. Afinal também iam velejar para o Panamá: uma viagem de 5 dias por 600 dólares. Só que com 15 (!) pessoas num monocasco de 50 pés. Ainda fomos espreitar quando voltámos a pé para o barco; no briefing, 5 tiveram de se sentar no tejadilho da cabine porque o cockpit não levava 15 pessoas. Enfim, mochileiros com uma mãe perdida pelo meio. Ficámos curiosos para saber como lhes correu, mas nunca mais as vimos.
Nós, por isso, partimos na manhã seguinte, os três, com toda a calma. Nas primeiras horas não havia vento nenhum, mas a certa altura entrou e fizemos uma velejada maravilhosa até às San Blas. É um arquipélago que oficialmente pertence ao Panamá, mas os indígenas (índios) prezam muito o seu próprio modo de vida e preferem não ter nada a ver com o governo nacional. Fazer a entrada lá era uma trabalheira, por isso aproveitámos o facto de só ser preciso fazer a entrada ao fim de 72 horas no Panamá. Chegámos então de manhã a uma ilhota e só saímos de lá na noite seguinte. À chegada fomos calorosamente recebidos por um golfinho que nadava devagarinho ao lado do barco, coisa que só me tinha acontecido uma vez.

Infelizmente, as San Blas já não são o reino idílico de ilhas “não civilizadas” que eram antigamente. O número de veleiros era enorme e até andavam por lá pequenos navios de cruzeiro. Pelo AIS estimei que haveria bem uns 400-500 veleiros fundeados, dos quais uns 20-30 junto à ilha onde estávamos. A zona está muito mal cartografada pelos grandes fornecedores de cartas. Existe um guia com cartas de pormenor, mas pelos vistos também nem sempre batem certo, e como íamos ficar pouco tempo não o comprámos. Por isso quis ir para uma ilha com uma aproximação segura. Visualmente é exatamente aquilo que se imagina de uma ilha tropical: areia, palmeiras. Só que com mais cabanas e, caramba, até um pequeno resort com música aos berros. Um bar de karaoke tornou tudo “completo”. À noite fomos um bocadinho a terra e, por 3 dólares, comprámos umas cervejas panamianas bem geladas ao índio que ainda tinha aberto. A seguir tivemos de nos despachar, porque ele queria ir para casa, no continente….


No dia seguinte, mais um dia delicioso de preguiça / trabalho a bordo, os banhos estavam divinais e a temperatura muito agradável, com uma brisa boa a correr pelo barco. Até o Sander voltou a nadar aqui; parece que tem fama de não nadar lá muito bem, mas nós achámos que se safou lindamente. À noite a coisa encheu e um veleiro com mau aspeto, cheio de passageiros, começou a fundear mesmo à nossa proa. Ó senhor, está em cima da nossa âncora… Ao fim de um quarto de hora, lá saímos mais cedo do que o previsto. Como assim íamos chegar de noite ao porto norte do Panamá (Cristóbal), e essa é a hora de ponta porque os cargueiros seguem então para o canal, entrámos de noite numa pequena baía que vi na carta. De manhã percebemos que afinal era mais sossegada do que as San Blas e muito bonita. Pena, aqui é que devíamos ter passado um dia. Mas as cabeças já estavam no Panamá e já nos tínhamos anunciado na marina, portanto toca a levantar ferro e rumo à marina.

Já tinha visitado a marina de Shelter Bay de carro com a Damaris e o Rudolf, e é muito bonita. Pontões robustos, água e eletricidade individuais, um bom restaurante, lojinhas, uma piscina grande. Com uma brisazinha do mar. Muito segura, mas bastante isolada, a meia hora de carro da primeira casa, e hoje em dia o exército panamiano voltou a ocupar a antiga base da US Navy que a rodeia. Tudo ótimo. O check-in foi um pouco confuso e depois percebeu-se a razão: os funcionários só falam espanhol e estão habituados a que seja o agente a tratar disso por nós. E esse é preciso de qualquer maneira (obrigatório) para o canal. O nosso lá veio tirar-nos do aperto e correu tudo bem. Fizemos logo o pedido para atravessar o canal o mais cedo possível em ou depois de 30 de abril.


No dia seguinte recuperámos com calma e celebrámos com os rapazes a chegada ao destino final (deles, claro). Alugámos um carro, que também nos vai levar ao aeroporto na quarta-feira. No domingo fomos até ao canal, onde há um centro de visitantes numa das eclusas. Foi bastante renovado desde há seis anos: agora tem uma sala IMAX onde passa um filme sobre as várias fases de construção do canal e sobre o seu funcionamento. Impressionante! Depois pode-se ir lá acima ver as eclusas, mas à hora a que lá estávamos os navios de um dos lados já tinham passado. Não nos apeteceu esperar mais hora e meia, por isso seguimos caminho. Felizmente, à entrada do complexo, cruzámo-nos com os primeiros navios e conseguimos ver as famosas locomotivas “mulas” a trabalhar.
Depois atravessámos o canal pelas duas pontes até à Cidade do Panamá, onde primeiro demos uma vista de olhos à marina seguinte, bebemos umas cervejas e Coca-Colas Zero em esplanadas e depois jantámos à grande na cidade velha. A comida foi de longe a melhor de toda esta viagem, fantástica. Não foi propriamente barato, mas a relação qualidade/preço foi ótima. A seguir, o Jesse e eu deixámos o Sander num hotel junto ao aeroporto; ele voou hoje de madrugada para Curaçau para tratar ainda de umas coisas com um parceiro de negócios.

Hoje esteve muito calor, por isso, tirando a roupa e o portátil, só nadámos um pouco e o Jesse ainda deu uma voltinha a pé. Ah, é verdade, conservámos o dessalinizador com químicos para poder ficar parado em segurança durante um mês com este calor. Logo à noite vem cá o casal do Grutte Pier beber uma cerveja; conheci-os em Cabo Verde e depois cruzámo-nos duas vezes sem nos vermos. Amanhã talvez umas compras, mais umas pequenas tarefas no barco, e na quarta-feira voamos de volta para casa. Vou estar 5 semanas em casa para os aniversários do Arnold, da Marion e da minha mãe… e depois, a 27 de abril, volto ao Panamá para atravessar o canal a 2 e 3 de maio.
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