Travessia
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Amanhã de manhã chegamos a terra, o Suriname à primeira luz, mas o meu coração ainda vai a boiar em dias feitos de nada mais que água.
Água por todo o lado, e no entanto nunca igual: desde ondulações que sussurram até vagas que exibem os músculos, cores que se deslocam como pensamentos junto ao horizonte.
Aves, companheiras inesperadas, andam um pouco às voltas connosco, como se também elas se espantassem com aquele barquinho naquele mar sem fim.
O marulhar não para, o balanço também não. Às vezes encontras a cadência e o sono embala-te, outras vezes rebolas na cama como se o mar te quisesse manter acordado.
Três horas de quarto por noite, sempre especiais, de cada vez. Estar ali, no cockpit, colete salva-vidas bem apertado, linha de segurança presa, uma musiquinha baixinho nos ouvidos, e sentir — aquela força imensa, a respiração do oceano.
Por cima de mim, estrelas, ao início uma lua cheia que tudo prateava, por baixo de mim aquele mar imensurável e nós: pequenos, mas vivos.
Estou grata, profunda e serenamente grata, por ter podido viver isto, por ter podido partilhar tudo isto com estes homens, naquele barquinho entre o céu e a água.
/Tanneke
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