Um copinho de Madeira
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A Marion chegou ontem à noite, 6 de novembro de 2025, a Tenerife e veio para bordo. Chegou no mesmo avião em que o Arnold voltou para casa. Teve graça, porque ainda se conseguiram cumprimentar: o Arnold ainda estava na fila do check-in quando a Marion já estava a sair. Pelos vistos há cada vez mais gente a ler o blogue, porque recebi queixas de que não havia atualizações. Além disso, a minha mãe tinha-me acabado de dizer que não conseguia abri-lo. Por isso, esta manhã a Marion pode pôr o sono em dia e eu atualizo o blogue. E bem precisa, porque afinal também havia uns percalços técnicos no site. Como experiência, tinha decidido usar a Cloudflare como frontend para o merrimac.nl; afinal, quando se tem tão poucas visitas como eu, não ajuda nada e até joga contra nós. Pior desempenho do que sem Cloudflare, por isso desliguei-a logo. E agora toca a atualizar o blogue a toda a pressa, porque estou um mês atrasado!
Comecemos onde fiquei: Lisboa. Para receber o Koen, tinha velejado até Cascais. É o “primeiro” porto da grande Lisboa para quem dobra a esquina vindo do norte e, tradicionalmente, o sítio para passear e ser visto, tanto para os lisboetas (? lisbonenses?) como para muitos turistas. Uma vila costeira simpática, com belas praias, um centro antigo lindíssimo e muitos restaurantes e bares. E, portanto, uma bela marina, que no verão é cara demais para mim: 120 € por noite, e por esse preço prefiro seguir viagem até um sítio um pouco menos ilustre. Mas em outubro já começou a época baixa e o preço cai quase para metade. O Koen chegou, à maneira do Koen. Ou seja: em vez de apanhar o Bolt que eu lhe tinha recomendado, apanhou um Bolt do aeroporto até à estação de comboios e depois o comboiozinho da linha da costa. Muito giro para ele, mas eu fiquei ali à espera sem saber por onde andava. Enfim, o reencontro foi ótimo e pusemos bem a conversa em dia. O Koen já passou por muita coisa na vida, tanto a nível pessoal como profissional. Por isso já era mais que tempo de falarmos disso com calma. Entretanto, andava às voltas com a KM, o Rob Wink (fornecedor) e a Schenker (fabricante) do dessalinizador: afinal é preciso uma motherboard nova. Depois de uns dias a fazer compras, pequenos trabalhos a bordo e boas jantaradas fora, chegou também a Saskia, a mulher dele, a Lisboa. Pouco viu da cidade, porque chegou depois do pôr do sol e na manhã seguinte já estávamos a largar, sobretudo porque, se esperássemos, o vento ia ficar uma miséria.
Na travessia para a Madeira tivemos bastante vento no primeiro dia, quase nenhum no segundo e, no terceiro, o suficiente para ter piada. Mas o vento vinha da direção certa, e a ondulação também. Tal como em 2019, voltámos a chegar de noite a Porto Santo, uma ilha de bom tamanho, mais ou menos como Ameland. Esta ilha, com a forma de um croissant ligeiramente torto, tem uma enorme praia de areia amarela ao longo de quase toda a costa sul. Um holandês há de pensar: mas a areia não é sempre amarela, a não ser quando é lamacenta? Não, areia nova de origem vulcânica costuma ser preta. Fiquem atentos, que isso ainda volta mais adiante nesta história. Portanto, um ótimo fundeadouro. Mas estava cheio, à noite contámos pelo menos 15 barcos fundeados, por isso escolhemos um sítio mesmo no fim do campo de fundeio, porque sem luz do dia é mais difícil perceber exatamente como estão as coisas. Com o radar ligado, claro, que assim dá perfeitamente para avaliar a que distância estão os outros barcos.


No dia seguinte entrámos no porto à sorte e, imagine-se, havia um lugar livre no pontão. O porto também estava cheio, com uns 30 barcos no pontão e mais uns 30 fundeados. Veio logo uma senhora nervosa dizer que aquele lugar era, na verdade, deles. Já não me deixo enervar e disse-lhe que ia procurar o capitão do porto. Fui simpático e, afinal, só ficávamos uma noite: sem problema, senhor, fique à vontade. A principal razão para querer ficar no pontão era ver se o Miguel, o antigo capitão do porto, aparecia. E não é que, uma horita depois, ele estava junto ao barco? Que barco tão bonito, senhor, isto e aquilo. Curiosamente não me reconheceu, nem ao barco, apesar de em 2015, com o Marc e a Martine, nos ter feito uma visita guiada completa e até nos ter emprestado o carro para darmos uma volta à ilha. Vou ver se consigo fazer uma entrada retrospetiva no blogue sobre essa visita. Desta vez combinámos que eu passaria mais tarde com o Koen. Entretanto houve também contacto com um casal que estava fundeado no porto e que, por acaso, eram os melhores amigos do irmão do Koen. Engraçado. Fomos beber um copo a bordo deles, gente muito simpática, mas com uma abordagem à vela diferente da nossa: tinham ficado quase um ano encalhados no norte de Portugal e já estavam há umas semanas em Porto Santo, onde, segundo eles, havia muito para fazer. Pois, pensei eu, então quero ver quanto tempo vão ficar na Madeira, onde há cem vezes mais para fazer. E Porto Santo é muito agradável como escala, mas dizer que acho o resto um sítio muito interessante? Não.
Aqui ficam umas fotos do Utopia, o barco em que o Miguel anda a trabalhar há 18 anos. Será que algum dia vai cumprir o sonho de ir ele próprio até Ushuaia e depois até ao gelo do sul? Espero bem que sim…


No dia seguinte seguimos para a Madeira com um tempo magnífico, mas com vento um nadinha fraco demais para velejar. Lá chegados, entrámos na marina da Quinta do Lorde, logo ao virar da ponta da ilha. Nos países do sul há dois tipos de pessoal da marina: as do escritório (geralmente senhoras) e os do pontão, sempre homens e muitas vezes disponíveis 24 horas por dia. Estes senhores não ficaram muito contentes por eu não ter anunciado a chegada no canal 9, nem ter feito reserva. Mas deixaram-nos ficar, isso sim. Era a terceira vez que cá vinha com o barco, e a parte de terra estava completamente transformada. Da primeira vez, em 2015, havia um complexo hoteleiro praticamente acabado, mas ainda sem funcionar. Um sítio sinistro. Da segunda vez, em 2019, já havia alguma vida, mas grandes partes continuavam vazias. Agora, em 2025, transformou-se num complexo de luxo com tudo incluído, com comida e bebida grátis por todo o lado para os hóspedes do hotel; infelizmente não para quem está na marina. Mas pronto, a cerveja na esplanada não soube pior por isso. No dia seguinte o Koen tinha alugado um carro e fomos explorar a ilha. Em três dias dei-lhes uma boa primeira impressão da sempre encantadora Madeira. Está realmente cheia de turistas, mas isso não tira nada à natureza avassaladora. Comparada com as Canárias é tão verde que quase fere a vista. A cada cem metros que se sobe pela serra acima, muda o clima e, com ele, a vegetação. Montanhas muito íngremes, com muitos túneis nas estradas principais e estradinhas muito estreitas e inclinadas, aqui e ali com bastantes pedras no caminho. Escaldados pela experiência, na Madeira passámos a fazer sempre o seguro completo no aluguer do carro, para não ficarmos a discutir pequenos danos mesmo antes do voo de regresso. No segundo dia o Koen infelizmente não se sentia bem, e eu fui, infelizmente, obrigado a ir sozinho com a Saskia a uma experiência de vinho da Madeira. Uma visita guiada muito gira às instalações de produção e armazenamento, com boas explicações sobre as várias castas e classificações dos vinhos. E claro que comprámos umas garrafas.


O último dia de passeio teve pontos altos como um mergulho na piscina natural junto a Porto Santo, com ondas espetaculares a entrar pela piscina dentro. Depois, jantar com a Paz e o Carlos na Casa da Capelinha, sempre uma festa. A Paz veio connosco até ao barco, porque queria experimentar como é andar num veleiro. É que íamos mudar o barco para a marina da Calheta, onde consegui reserva até o Arnold chegar. Claro que ao princípio o passeio não foi fácil, com ondulação desagradável e sem vento. Felizmente mais tarde o vento entrou e pudemos seguir à vela, o que é sempre mais tranquilo, e a coisa compôs-se. No fim até começou a soprar bem, e tivemos de entrar no porto da Calheta com ondas valentes. Esse porto está bastante desabrigado na costa, por isso é preciso fazer uma curva apertada na entrada e logo a seguir outra. Lá dentro, atracámos o barco direitinho; curiosamente, corre sempre pior quanto mais gente há a bordo e mais gente vem ajudar do cais.
Na Calheta ainda apanhámos, por uma noite, outros amigos velejadores da Saskia e do Koen, que eles conhecem da Zelândia. A Tineke e o Eric, do Maneskin, tinham ido diretamente do Porto para Porto Santo, por medo das orcas que andam a tornar inseguras as costas espanhola e portuguesa. Já na Madeira, ela ainda falava do assunto como se continuasse a ser uma ameaça. No dia seguinte fizemos logo amigos ao oferecer a máquina de lavar de bordo, porque em terra havia uma lavandaria, mas só com atendimento e, por isso, muito cara. Mais tarde ofereci-a também a um barco alemão vizinho; é, portanto, uma maneira rápida de fazer amigos.

Entretanto voltei a mexer no dessalinizador: agora afinal também as ventoinhas das bombas não funcionavam bem. Como as ventoinhas da Sunon (a “marca de referência” nesta área) custam só 6 €, era mais simples comprá-las eu próprio (na manhã seguinte em casa, em Harlingen…) do que voltar a negociar com a Schenker e o Rob Wink. A mala do Arnold vai ficando mais cheia…
Também há qualquer coisa com a hidráulica dos lemes: o leme está um bocadinho duro demais para a pressão máxima que consigo pôr o sistema a fazer. Depois de uma aprendizagem online e de uma conversa com o Eeuwe, fico a saber que há várias molas que podem estar numa válvula reguladora de pressão, por exemplo 0-70 bar, 15-100, 50-150, etc. E não é que eu tenho a de 0-70 e na verdade queria poder chegar aos 80 bar? Hmmm. Por agora safo-me assim: quando os lemes estão quase em cima, faço descer a quilha umas quantas vezes por instantes, o que cria de cada vez uma pequena onda de pressão no sistema, e para já chega.
Depois chega o Arnold, e também ele só pode aproveitar uma noite no ponto de partida, por causa da previsão de (falta de) vento. Mas sobre isso falo no próximo episódio.




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