À terceira é de vez

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Como teríamos de esperar quase 8 horas pela ponte em Whitby, optou-se por continuar a navegar ao longo da costa, rumo a norte. Logo se via, consoante o tempo e a tripulação. Ao chegarmos ao rio Tyne, a tentação foi demasiado grande. O Wim e o Bas continuavam a não se sentir lá muito bem e o porto chamava por nós. Por isso atracámos no primeiro sítio possível, a Royal Quays Marina. Uma marina superluxuosa, com o capitão do porto contactável 24 horas por dia, 7 dias por semana. Estava à nossa espera uma senhora simpática para nos agarrar os cabos na eclusa e depois no lugar de amarração. Não que fizesse falta: o Bas à proa, o Wim ao leme, eu à popa, e entrámos de marcha à ré no lugar sem espinhas. Claro que há tradições que é preciso honrar, portanto, depois de aduchar os cabos, o primeiro passo foi rumo ao café para uma cerveja fraca e Fish & Chips.

A primeira Pint e, claro, Fish & Chips (o peixe já foi à vida)

Estávamos a milhas de Newcastle, por isso não vimos o centro renovado da cidade, mas reparei que há construção nova por todo o lado ao longo do rio. O ar de miséria já lá vai. No dia seguinte estavam todos bem descansados e o vento tinha amainado um pouco, para uns 4-5 Beaufort de oeste, com rajadas. No mar, verificou-se que à frente dos aguaceiros ainda soprava a uns bons 30-35 nós, por isso seguimos para norte com o pano bem reduzido. Desta vez o destino era Eyemouth, o primeiro porto na Escócia. Aberto também na baixa-mar (porque não tem ponte nem eclusa). Um portozinho muito querido, onde o negócio já não é o peixe mas sim as eólicas; só que aqui não lhes chamam “Sea Zip”, como em Harlingen. Fica-se num pedaço do rio separado por um dique, enquanto a corrente normal do rio passa por trás de nós.

A Pelagia atracada ao cais em Eyemouth

Infelizmente chegámos tarde demais para jantar em terra: às 20:00 as cozinhas já estavam todas fechadas. Depois de uma cerveja no pub, lá fomos buscar comida chinesa para levar. Até soube muito bem, depois de mais um longo dia de vela.

No dia seguinte, o tempo e as condições aqui na costa leste da Escócia voltaram a ter um papel importante. Continuava o ‘tempo de oeste’, com uma série de depressões. Frio para a época do ano, com tempo (muito) limpo alternado com aguaceiros violentos. Ótimo tempo para ver da janela de uma casinha com vista, mas nem tanto para atravessar à vela. A solução é escolher o momento certo. Neste caso, sabíamos que tínhamos de chegar a Peterhead esta semana. Pode-se parar uma ou duas vezes pelo caminho, mas depois há que aceitar o vento e a chuva tal como vêm. Escolhemos a melhor janela de vento da semana, o que significava não sair de Eyemouth muito cedo e navegar de noite para chegar a Peterhead de manhã cedo. São 100 milhas, e isso um Contest 46 não faz num dia (longo) de vela. Não faz mal: ainda havia bastante do delicioso rendang (graças à cozinheira Marion) e o vento ia ser de largo a través. Saímos ao meio-dia e às 06:00 estávamos em Peterhead, depois de uma bela travessia, com o Wim e o Bas já habituados ao balanço. Outra vez quartos de 2 horas de serviço e 4 de descanso. Mais do que isso também não se aguentava cá fora à noite: estava um frio de rachar (~5 graus).

Um belo pequeno-almoço depois de uma noite fria a navegar

Depois de pôr o sono em dia, fomos ao capitão do porto, onde um local pregou um valente susto ao Wim ao dizer que tinha ouvido que o Caledonian Canal ia fechar para manutenção. Felizmente afinal não era verdade. A seguir fomos ao impressionante museu da prisão, ali ao lado. Nos anos 70 houve aqui um motim contra o qual a Maggie Thatcher mandou o SAS. É bizarro que esta prisão tenha estado aberta até 2014; Alcatraz não era nada ao pé disto. Veja-se, por exemplo, https://www.bbc.co.uk/news/uk-scotland-41397881

Os escoceses com quem falamos são todos muito simpáticos e parecem estar sempre bem-dispostos. Desde os capitães do porto ao pessoal do bar, ou os grupinhos nos bares com quem metemos conversa ou que metem conversa connosco. Um pouco a sensação que também temos na Frísia: há sempre tempo para dois dedos de conversa. Muito bom.

Ontem de manhã o Bas apanhou o autocarro para Aberdeen, por isso agora somos só dois. Daqui a pouco vem buscar-nos o Mark Steinhart, um companheiro do meu grupo de amigos dos tempos da universidade em Delft. Vive cá desde que casou com uma bela escocesa, há uns 30 anos… Das duas vezes anteriores que cá estivemos com o Merrimac, ele estava sempre no estrangeiro ou numa plataforma petrolífera; agora que está reformado, finalmente dá. À terceira é de vez.

Umas belas cervejas num pub acolhedor

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