Juntos para a Irlanda

· Azoren, 2023, Ierland, Starlink

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As últimas semanas em Ponta Delgada passaram a voar, sobretudo porque aquilo se revelou um autêntico «sai um, entra outro». Mal tinha acabado de me despedir de uns conhecidos e já tinham chegado outros. O encontro mais engraçado foi mesmo inesperado. Estava um senhor holandês junto ao barco, a conversa do costume, «belo barco, sim senhor», um tipo simpático, por isso convido-o a subir a bordo. A certa altura, quando estava mesmo para lhe mostrar o interior, aparece também a mulher dele. Diz ela: espera aí, que eu vou chamar os outros dois. Cinco minutos depois, estou eu no camarote de proa, só tínhamos trocado os nomes próprios, e de repente apanho o apelido do segundo senhor: Korte. Olha, o meu primeiro chefe na Oracle também se chamava Wim Korte. Estupefacto, digo: mas Wim, tu conheces-me, sou o Kees Verruijt e foste tu que me contrataste! E depois de 30 anos sem nos vermos, reencontramo-nos assim! Seguiram-se uns dias muito bem passados com o Wim, a Margaret e os amigos deles. Boa companhia, também, para ir aos melhores restaurantes. Depois da foto abaixo, a Margaret apareceu de manhã junto ao barco: o meu passaporte está aí contigo? Não, infelizmente. E uma horita depois: posso pedir-te a bicicleta emprestada? É que o passaporte ficou no restaurante! Que alívio!

Jantar com a tripulação do Pelagia

Na quarta-feira, 12 de julho, chegou o Arnold. O táxi deixou-o direitinho no porto e ele pôde vir logo a pé até ao barco. Eu ainda estava no Wings à conversa com o Frans e a Amelie, que já tínhamos encontrado nos Açores há dois anos. Têm casa na Horta, mas afinal vão voltar para os Países Baixos, porque o ensino em português para as duas filhas acabou por ser uma desilusão. Espero que se voltem a habituar a Haia e aos Países Baixos!

Foi bom voltar a ver o Arnold. Depois de um belo hambúrguer juntos no restaurante do porto (é certo que um pouco abrigados da chuva debaixo do toldo da esplanada) e das devidas cervejas locais, fomos logo no dia seguinte ao museu militar dos Açores, que fica mesmo ao pé do porto, num forte antigo. Os Açores passaram por muita coisa num passado distante, mas pouco disso foi preservado. Havia sobretudo tralha velha, digamos assim, nada comparável, por exemplo, ao museu de Soesterberg, onde estivemos há uns meses com o Hugo Linnenbank. Já a exposição sobre as guerras de independência nas colónias foi interessante para nós, porque era um tema que não tínhamos muito presente. Portugal tentou manter as suas colónias durante ainda mais tempo do que os Países Baixos. Talvez por o próprio país ser tão mais pobre? Seja como for, acabou da mesma maneira, só que com muitos mais mortos inúteis.

Acho que o Arnold se tinha livrado da tropa se vivesse em Portugal nessa altura

Para fugir à fila n’A Tasca, fomos cedo e conseguimos sentar-nos logo neste restaurante popularíssimo. Já lá tinha estado com o Gerard e o Peter, mas dessa vez tivemos de esperar hora e meia. Também desta vez valeu bem a pena; vejam na foto abaixo o chouriço flambeado à mesa.

Fogo à mesa

O Arnold teve um bocado de azar, porque voltei a ser atacado pela pressa de partir: logo no dia seguinte quis zarpar, porque estava bom tempo e as previsões davam ainda menos vento. Achei que assim conseguia fugir às calmarias. Infelizmente não correu bem assim… e mais valia termos ficado mais uns dias, para o Arnold ver um pouco mais dos Açores.

Vista do porto de Ponta Delgada a partir do forte

Enquanto estivemos a sotavento da ilha parecia tudo ótimo, mas assim que apanhámos vento livre foi preciso dar o litro para manter o barco a andar com a ondulação. A ondulação forma-se porque está ou esteve a ventar noutro sítio, e essas ondas velhas seguem pelo oceano centenas, se não milhares de quilómetros. O chato é que o barco sobe e desce, balança e baloiça, e vai perdendo energia. Por isso, com ondulação precisa-se de mais vento do que sem ela para fazer a mesma velocidade.

Tempo cansativo

Pelo caminho, a dois, correu tudo com calma, mas foi cansativo. Sobretudo a meio, quando tivemos de atravessar uma frente durante um dia e uma noite e por isso fomos à bolina, a bater nas ondas e na ondulação. Não é perigoso — hoje em dia rizamos mais cedo e assim não há problema nenhum. Mas dorme-se pior, com a cama a balançar. Os melhores colchões de bordo são, aliás, os mais desagradáveis nessas alturas, porque têm molas e a cama toda baloiça junto. Também tenho de me habituar aos ruídos todos; quero reconhecer cada barulhinho. Só depois de perceber que chiadeira corresponde a que cabo a gemer para trás e para a frente numa roldana é que consigo dormir.

O Starlink a trabalhar

Foi a segunda vez que usámos o Starlink numa travessia, desta vez sem o Iridium como reserva. Voltou a portar-se lindamente: de vez em quando uns minutos de falha, mas no geral uma ligação excelente. Por umas dezenas de euros de «dados móveis prioritários» pudemos andar pela internet à vontade. Pelo caminho cheguei até a montar uma estação extra do MarineTraffic, para podermos reportar a nossa própria posição (e a dos navios à nossa volta) e qualquer pessoa poder consultá-la. O seguimento na nossa página também foi sendo atualizado.

Com o avanço lento e aos solavancos, ao fim de uns 6 dias o Arnold já estava «farto». Percebo-o bem, eu também estava, para ser sincero! Mas felizmente o fim começou a avistar-se e, ao fim de 8 dias, chegámos numa bela manhã de sábado a Crookhaven, na Irlanda. Crookhaven tornou-se claramente uma aldeia de férias, com 3 pubs/restaurantes que estavam todos a abarrotar, de modo que lá conseguimos beber uma Murphy’s (a stout do sul, de Cork, propriedade da Heineken…), mas comer, nada. E a barraca de fish and chips não tinha fish, só um hambúrguer (vendo bem, fraquinho). Mas não fazia mal, e as batatas fritas estavam boas.

Finalmente na belíssima Irlanda

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