São Miguel

· Azoren, 2023

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A viagem à vela de Harlingen até à primeira ilha acabou por correr muito bem e praticamente sem nada a assinalar. Voltámos a conseguir fazer os quartos de vigia cá dentro e havia muito pouco tráfego marítimo depois de, ao largo de Brest, termos virado para SSO e atravessado aí o esquema de separação de tráfego. Por uma razão qualquer, não apareceu um único navio que tivéssemos de evitar ou que tivesse de alterar o rumo por nossa causa.

A única coisa que nos fez suar foi o novo “Code Zero”. É uma vela de proa extra grande, içada solta, sem estai. Tem um cabo anti-torção que, juntamente com um enrolador, devia permitir-nos enrolar a vela sem problemas. Da primeira vez fizemo-lo de forma um bocado desleixada e da segunda havia vento a mais. Em ambos os casos acabámos por arriar a vela, folgando a adriça e puxando-a (a custo) cá para baixo. Tudo isto, claro, bem presos à linha de vida no convés. Perigoso não foi, mas pesado foi, porque aquela vela é um monstro dos grandes. Portanto, mais treino, com outra técnica de enrolar.

Enfim, em termos de dificuldades foi só isso, tirando o facto de o hidrogerador Watt&Sea e o aquecedor Kabola (para a água quente) terem deixado de funcionar.

No sábado passado, às 8 da manhã, chegámos a Ponta Delgada, a capital de São Miguel. É a capital da maior ilha dos Açores. É uma cidade antiga lindíssima, com casas quase todas originais. A natureza à volta é espetacular, com imenso verde.

O centro de Ponta Delgada
Claro, uma dose de lapas para nos apresentarmos aos Açores

Como no domingo ia chover a potes, no sábado descansámos um pouco e fomos comer fora (2x), e no domingo fizemos uns biscates. A hélice do Watt&Sea tinha sido mal montada por mim, por isso tivemos sorte de não se ter soltado. Fácil de reparar. Além disso, afinal o fabricante já tinha uma nova versão do software, que nos permite ajustar melhor o aparelho às baterias de lítio do Merrimac. Vamos fazer essa atualização hoje ou amanhã, agora que conseguimos arranjar um cabinho USB Mini. Descobrimos que o Peter tinha trabalhado num fabricante de queimadores a gasóleo. Achou muita graça ao tamanho minúsculo do queimador do Kabola, mas reconheceu tudo. Infelizmente, nem o Peter conseguiu pôr o Kabola a funcionar de vez.

Os três no Peugeot, coube mesmo à justa!

Segunda-feira foi o primeiro dia com o Peugeot 208 alugado. Um carrinho fantástico — nada range nem chia e subia as serras sem problemas, mesmo em rotações baixas. Felizmente, na segunda esteve relativamente solarengo, com poucas nuvens. Um dia perfeito para ir até ao antigo vulcão das “Sete Cidades”. Aqui pode-se admirar uma vista espetacular sobre a cratera. Antigamente as duas lagoas da cratera eram ainda um bocadinho mais especiais: uma era verde e a outra azul. Agora estavam as duas esverdeadas.

As duas lagoas das Sete Cidades
Kees, Peter e Gerard

Passando pelos miradouros (Mira = ver, Ouro = ouro), fomos serpenteando até à orla da cratera. Nestes sítios turísticos há, claro, outros turistas, mas dizer que estava cheio de gente, isso não. Com o passar do dia, lá vais reconhecendo os vários carros alugados que andam a fazer um passeio parecido. Num desses miradouros metemos conversa com um casal germano-argentino, o Christoph e a Virginia. Afinal também tinham chegado aqui de veleiro, no caso deles vindos das Caraíbas. Depois de um almoço delicioso com atum-voador fresco, regado com uma garrafinha de “Frei Gigante” (um vinho branco ótimo do Pico), voltámos ao barco, onde continuámos com os biscates — sobretudo, outra vez, no Kabola. Mais tarde os nossos novos amigos vieram beber um copo a bordo. Trouxeram uma cavala lindíssima — tinham recebido duas do vizinho, que tinha apanhado uns quantos peixes.

Miradouro número não-sei-quantos
Piscina natural

Na terça o tempo estava um pouco pior, mas começou razoavelmente bem. Depois do pequeno-almoço fomos para norte, onde eu queria muito mostrar ao Peter e ao Gerard a “Gorreana”, a única plantação de chá da Europa. Em relação a 2015 havia algumas mudanças, está a ser construído um café novo, mas as máquinas continuam velhíssimas (mais de 100 anos). Até se estava a trabalhar na fábrica: estavam a filtrar chá, a encher sacos e saquinhos e a dobrar e encher caixinhas. Claro que comprámos chá à farta! Depois de uma longa volta pela lindíssima costa leste, de regresso ao barco, mais biscates no Kabola. O Peter preparou a cavala germano-portuguesa no forno de forma fantástica, por isso voltámos a jantar a bordo. Depois do jantar fui analisar a trotinete elétrica para perceber porque é que já não queria carregar (bem). Uma horinha depois estava toda desmontada em pecinhas em cima da mesa. Conclusão: bateria falecida por falta de carga…

As máquinas velhíssimas da Gorreana
Descubra o farol!

Na quarta o Gerard não se estava a sentir muito bem, por isso, depois de esperarmos um bocado para ver, fomos só eu e o Peter de carro para sudeste. Aqui, na cratera das “Furnas”, há uns quantos sítios onde o interior quente da Terra chega bem perto da superfície. Uma feridinha da Mãe Terra, se quiserem. Há sítios onde borbulha, sítios onde cheira a enxofre e sítios de onde também brota água quente. Muito especial de ver (outra vez)! No regresso ainda passámos pela Decathlon para comprar uma trotinete nova.

Hoje, quinta-feira, deixei o Peter no aeroporto às cinco da manhã, e os nossos novos amigos alemães aproveitaram a boleia, porque iam no mesmo voo. Foi super divertido ter cá o Peter: é ótimo na conversa fiada, a cozinhar, a beber cerveja e a velejar.

Agora estamos outra vez só os dois. O Gerard ainda vai ajudar a levar o barco até à próxima ilha. De preferência a Horta, mas no início desta semana ainda estava muito cheia de barcos vindos das Caraíbas. Esperemos que isso agora acalme um pouco e possamos ir para lá. Senão, vamos para São Jorge ou para a Terceira.

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