3200 milhas de Bonaire ao Faial (Horta)

· Bonaire, 2021, Azoren

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Há muito tempo que esperava ansiosamente pela travessia do Atlântico de oeste para leste. É verdade que já tínhamos feito a de leste para oeste, mas essa revelou-se muito fácil: proa a oeste e vento forte pela popa! Dez dias é mesmo muito rápido e, na verdade, é um bocadinho curto demais para a verdadeira experiência. Ora, como estava sozinho em Bonaire, tive bastante tempo para estudar bem o planeamento da rota. Se tentares seguir em linha reta a partir de Bonaire, tens de navegar muito tempo em bolina cerrada e depois entras (muitas vezes) numa grande zona de calmarias e pouco vento. No Merrimac temos uma assinatura do PredictWind, onde se pode configurar um diagrama polar que explica a que velocidade o barco anda com cada vento. Nunca bate totalmente certo, mas anda razoavelmente perto. No mar ainda se pode afinar um pouco – podes indicar uma percentagem da tua polar, que vento queres evitar e se queres navegar depressa ou com conforto. Ora, a rota Bonaire - Faial é na verdade demasiado longa, uns 17 a 25 dias, para ser totalmente roteada: as previsões não olham tão à frente. Mas em Bonaire já é bastante claro: há uma enorme zona de alta pressão com pouco vento. Por isso optamos mesmo pela “rota clássica”: tentar contornar essa zona, já que no lado norte há vento de oeste. Navega-se primeiro para norte e depois para leste. Passa-se quase pelas Bermudas, ou até para além delas. O que até dá jeito: se acontecer alguma coisa, pode-se sempre desviar para lá. Em tempos normais até se fazia lá uma escala, mas em tempos de Covid isso volta a ser complicado, com quarentenas e afins.

Depois de a Marion e a Els descansarem e se livrarem do jet lag — tanto quanto é possível quando se passa de repente de um ambiente de trabalho agitado para uma ilha tropical — passamos 3 dias a fazer compras. Entram a bordo sacos com fruta, legumes, ovos, leite UHT, cerveja, carne, peixe, farinha, etc. À noite há muita vida social e a Els e eu fazemos os últimos mergulhos com o Martijn. A Marion e eu jantamos no restaurante “satélite” do Jonnie Boer, dormimos num hotel de luxo com ar condicionado, jantamos com o grupo todo de holandeses no lado leste, etc.

A Els e a Marion a descansar logo depois de partirmos. Bonaire ainda ao fundo.

A 19 de maio partimos finalmente de Bonaire. Vêm despedir-se de nós os nossos novos amigos do Baradal, do Eight e do Fidelis, mas também outros barcos com quem falei – o Yndeleau, o Beethoven e o Intrepid C, todos vêm dizer adeus! Vamos sentir a vossa falta!

A partir de Bonaire podia-se seguir diretamente para nordeste, rumo às BVI ou a St. Maarten, mas para quê? Não temos nada que fazer lá! Primeiro rumo a norte, em direção à passagem entre a República Dominicana e Porto Rico. Assim temos o vento pelo través e não temos de andar a bater contra as ondas. O planeamento bate certo: são de facto dois dias de navegação até lá chegarmos. Andamos depressa, porque o alísio sopra com vontade de sudeste, a 20 a 25 nós. Com mareações largas e muito vento, a Marion precisa sempre de dois ou três dias para ganhar pé de mar, mas é precisamente por isso que levamos uma terceira pessoa. A Els e eu fazemos então quartos de 3 horas, e corre lindamente. Aqui há tão pouco movimento de navios e pescadores que, na verdade, não há nada para fazer. Ao fim de três dias a Marion já está recuperada e passamos para 2 horas de quarto e 4 de descanso, que na minha experiência é um esquema de quartos excelente. Para as senhoras era a primeira vez, mas acho que as convenci. Dorme-se o suficiente, os quartos de 2 horas passam num instante e de noite também não se anda a petiscar demasiado.

A velejar que é um gosto. Repara nos tufos de sargaço.

Na “Passagem da Mona”, entre PR e RD, o vento desaparece por completo e, embora depois volte algum vento, andamos claramente mais devagar. E um dia depois temos mesmo de ligar o motor. No total vamos andar uns 4,5 dias a motor até o vento voltar. A partir daí é roteamento 3 vezes por dia através do Iridium Go e do PredictWind. Às vezes não conseguimos cumprir a previsão, às vezes sim, e às vezes andamos bem mais depressa. Isto depende de o vento e as ondas se portarem conforme a previsão.

Code 0 já rasgado

Na calmaria, enquanto andamos a motor, vou buscar o Code Zero. Infelizmente afinal já está danificado, apesar de ainda não termos navegado muito com ele (talvez uns 20 dias). O olhal do punho de amura rasgou-se. Também parece feito de forma algo simplista para uma vela de 150 metros quadrados. Com a “Easy Stitcher” coso dois cabos extra de dyneema que devem evitar que a vela rasgue no punho. Infelizmente, poucas horas depois de a içarmos, a vela inteira rasga-se ao meio com uns 14 nós de vento. Se calhar pus demasiada tensão na testa? Espero que na UK de Vries, em Makkum, ainda consigam fazer alguma coisa com ela. Quero mesmo falar com eles sobre esses olhais: na minha opinião a construção ali não é suficientemente forte; a vela está o tempo todo enrolada num cabo anti-torção e isso cria mais esforço que não se consegue dissipar bem. De qualquer forma, os meus problemas são sobretudo com os punhos das nossas velas: também o estai (2015) e a vela grande (2021) tiveram problemas com as fitas nos punhos. Isso tem de ser melhor, e pode ser.

Este bocadinho de sargaço já trava o barco!

Entretanto vemos pouca natureza, mas felizmente também nenhum plástico. Ao fim de uma semana começamos a pescar, mas por causa de tanto sargaço só apanhamos algas malcheirosas e nenhum peixe morde. Também não vemos barcos de pesca …. A única coisa que vemos aos milhares são caravelas-portuguesas. Não são alforrecas, mas sim uma simbiose de quatro tipos de pólipos, seriamente perigosa para quem nada. Chamam-se assim porque são impulsionadas por um dos tipos: esse enche-se como uma espécie de vela cor-de-rosa arroxeada, acima da água. A forma desta parte faz lembrar o grande elmo que os soldados portugueses usavam no século XV. São muito mais pequenas do que eu esperava: a vela tem 10-15 cm de comprimento. Ainda bem que agora não temos de ir à água! Durante dias vemos passar às vezes uma por segundo.

Caravela-portuguesa
À procura de golfinhos

A vantagem da alta pressão é que temos semanas de tempo maravilhoso: as senhoras apanham banhos de sol e o meu nariz não para de descascar, agora que o bimini está enrolado. Experimentamos várias maneiras de usar a câmara 360, mas em navegação não é fácil fazer outra coisa que não os planos do costume. A meio do caminho a Marion já está farta: “E amanhã é tudo igual outra vez? Nada para ver a não ser água!”

Banhos de sol
Vista de cima
Esta é a nossa vista durante mais de duas semanas…

Na noite de 1 de junho o tempo muda. A temperatura já vinha a descer todos os dias, mas o tempo continuava bom. De repente apanhamos a passagem de uma frente com alguma chuva, mas, mais importante: uma bela dose de vento. Nos dias seguintes ainda abranda um pouco, mas depois a previsão é termos vento suficiente.

No dia seguinte, depois de mais de uma semana a tentar, apanhamos finalmente um peixe. Desta vez com a cana em vez da linha de mão. Ainda bem, porque para nós é um bicho enorme, com mais de um metro e 8 quilos. Perguntamo-nos o que será. Pelo Iridium Go filosofamos um pouco com a Holanda (André e Peter), mas só descobrimos na Horta, depois de perguntar a muito mais gente: era um “long billed spearfish”. Ou seja, um espadim-bicudo, e não um espadarte nem um peixe-vela.

Finalmente apanhámos um peixinho

Entretanto entramos mesmo em águas mais frias e começamos a ver golfinhos todos os dias. Se ao princípio saltávamos entusiasmados, no fim às vezes já nem ligávamos. É incrível como nos habituamos depressa às coisas!

Golfinhos
Mais golfinhos a brincar à proa

A partir das 2000 milhas que faltavam começámos a acompanhar isso nos plotters. Se ao início anda devagar (faltam 1800 milhas … na noite seguinte 1650 … mais um dia e 1480 …), à medida que nos aproximamos dos Açores vai cada vez mais depressa. O comportamento a bordo muda quando sabes que só faltam 4 dias. Dou por mim até com pena; se calhar uma viagem ainda mais longa era boa ideia para mim. Semanas sem redes sociais, email e chat dão uma calma enorme. Só recebemos umas quantas mensagens por dia de pessoas que nos mandam um SMS pelo Iridium, e ligamos aos filhos 2 vezes. Não é nada fácil: tens de fazer uma espécie de “escuto”, porque o atraso é longo como antigamente. No fim de contas, fizemos a travessia em 20 dias, a uma média de 6,9 nós, o que até foi bastante rápido: a maioria das pessoas leva 23 dias a partir de St. Maarten. Fizemos um desvio de umas 800 milhas.

Como disse, nos últimos dias andamos depressa, o que é bom, porque nessa altura também já estás pronto para chegar. O roteamento levou-nos até quase 41 graus norte, enquanto o Faial fica 120 milhas mais a sul! Graças a isso apanhamos durante dias a Corrente do Golfo a favor e seguimos a todo o pano com o vento pela alheta, a 220 milhas por dia, rumo à Horta. Também é giro passarmos, no penúltimo dia, muito perto das Flores. Pelos vistos é uma das mais tranquilas das nove ilhas, com imensas flores (daí o nome). A marina é minúscula e foi totalmente destruída numa tempestade em 2019. Vemos ao longe grandes gruas em batelões a recuperar do fundo do mar os contentores que na altura foram parar ao porto. Neste momento também não se pode lá ir, está fechada. Além disso, por causa da Covid temos de nos apresentar primeiro em São Miguel ou no Faial, onde há instalações para testes. Mas aquilo por que todos, às escondidas, mais ansiamos: rede de telemóvel! Como estão as coisas em casa, está tudo bem? Com uma ligação melhor a conversa é muito mais descontraída e consegue-se “ler” melhor nas entrelinhas como vão as coisas.

Terra à vista! Desta vez são as Flores a surgir da nuvem que as cobre.

Uma das coisas que percebemos graças à internet temporária é que a entrada oficial e o teste covid continuam organizados tal como quando partimos. Vemos no MarineTraffic que cerca de 30 (!!) barcos vão chegar nas 24 horas a seguir a nós. Vai estar portanto a abarrotar. E confirma-se quando, na manhã seguinte, 8 de junho, chegamos à Horta por volta das 10 horas. Contactamos a marina no canal 9; instruções: fundear e esperar pelo semirrígido que vem recolher os dados, e depois o teste; por volta da 1 vêm buscar-nos para isso, mas pode ser que tenhamos de esperar 1 ou 2 dias porque há muito movimento. Fundeamos mesmo em frente à marina, para estarmos bem à vista do semirrígido que nos vem buscar para o teste. Somos logo o 2.º barco a ser recolhido, por isso não foi nada mau. Entretanto há de facto uma enorme confusão à nossa volta: estamos fundeados com uns 50 outros barcos e também a marina está completamente cheia.

Slalom pelo fundeadouro

A Horta é logo tão diferente das Caraíbas: tudo verde, bastante fresco, com um pouco de chuvisco. Os antigos botes baleeiros, agora usados pelos faialenses para vela de recreio, passam a toda a velocidade à nossa volta. Mandamos vir comida do Peter Café Sport, cujo pessoal anda de barco com gorros do Onde Está o Wally. E come-se bitterballen com champanhe! Chegámos e conseguimos!

Bitterballen da fritadeira de ar com um copinho de espumante

E para fechar esta viagem fantástica, só mais um vídeo….

P.S. Eu antedato os posts. Isto foi carregado a 1 de julho, mas ponho como data de publicação o último dia descrito.

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