Sinti Aruba, Bon Bini Bonaire

· Bonaire, 2021

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Ao fim de 4 meses, finalmente voltei a velejar de uma ilha para a seguinte. Na segunda-feira à noite percebeu-se que a semana inteira ia ter menos vento. É que nas ilhas de Sotavento o vento sopra sempre de leste, a não ser que passe um furacão mais adiante nas Caraíbas. Mas fora da época dos furacões é, portanto, garantidamente 100% vento de leste, e com 25 nós não tem graça nenhuma ir contra ele. Ainda por cima há uma corrente constante para oeste de 1-2 nós. Em tempos normais quase nunca acontece velejadores irem de Aruba para Bonaire, mas estes não são anos normais.

Seja como for, em novembro ainda tinha pensado que talvez se conseguisse fazer uma época mais ou menos normal, e tinha sobretudo as ilhas Turks e Caicos e as Baamas debaixo de olho. É que aí, do lado oeste das ilhas, onde se quer ficar por causa do vento, é pouco fundo a muito pouco fundo. Isso significaria que finalmente podíamos voltar a ficar sozinhos algures. Como a Marion só vinha por umas semanas, eu preencheria o resto com tripulação. Mas para a tripulação vir tem de ser atrativo para eles, e para a maioria das ilhas das Baamas só se consegue voar via EUA (é só meia horinha a partir de Miami ou Fort Lauderdale), o que para os holandeses neste momento não tem atrativo nenhum, porque primeiro têm de passar 2 semanas algures fora da UE, em Aruba por exemplo. Além disso, o governo holandês tem desencorajado as viagens com proibições, exigências de testes e recomendações de viagem. Por isso, continuamos nas ilhas ABC; a nossa aposta é que a KLM vai continuar a voar para cá durante bastante tempo.

Mas bem, primeiro vamos lá ao que aconteceu desde 21 de dezembro. Atualizar o blog desapareceu um bocado do radar.

No dia 22, o Arnold e eu mudámo-nos com o barco para Palm Beach. É a zona dos hotéis em arranha-céus cheios de americanos. Muito turístico, com gente a marcar passeios de parapente ou numa ‘banana’ rebocada por uma lancha, ou um passeio de vela ‘romântico’ num barco com um estaizinho minúsculo e muita, muita bebida. Foi muito giro ficar fundeado num ambiente destes! À noite, muito à maneira, ir de bote 200 m até ao MooMba Beach Bar e depois saltar do bote para a esplanada com ar descontraído. E não é só giro quando se tem 22 anos! Infelizmente, no dia seguinte tive a brilhante ideia de baixar um pouco o patilhão para o barco balançar menos, e a mangueira do leme de estibordo decidiu que era o momento ideal para rebentar. 20 litros de óleo hidráulico no paiol do cockpit e o patilhão a bater no fundo. Ups! Depressa com o Arnold para terra, eu vou telefonando e dou instruções sobre onde se pode comprar óleo. Infelizmente era mesmo a hora de fecho, mas o Rishi da Varadero Aruba responde na mesma: claro, vão até ao estaleiro e lá está o Mundo, o guarda-noturno e faz-tudo, à espera com um bidão grande de 5 galões de óleo. Um pouco espesso demais, é verdade, mas pronto. Depois, a muito custo, deitámos litro a litro de novo no sistema, desligámos os lemes e, felizmente, o patilhão voltou a subir. Nos dias seguintes voltámos a descobrir como certas coisas funcionam de forma diferente e complicada numa ilha destas. Há uma empresa que tem mangueira hidráulica e consegue cravar terminais, mas os nossos terminais não têm. Portanto… mangueira nova nos terminais antigos. Mangueiras de novo montadas e, viva, os lemes também voltam a subir e a descer. Em retrospetiva, já tinha havido todo o tipo de sinais de que isto estava para vir, mas tinham-me escapado; agora já sei.

Depois de uns dias de Natal calmos e agradáveis com o Arnold, ele voltou no dia 28 e chegaria portanto à Holanda no dia 29, precisamente o dia a partir do qual era preciso chegar com teste PCR, exceto se se viesse da parte caribenha do Reino. Por isso achámos que ele não precisava de teste, e a companhia Copa Airlines, com quem voou para o aeroporto de trânsito no Panamá, também achava, mas a KLM no Panamá via as coisas de outra maneira… Pois, senhor, trate o senhor do teste. Só que ele, na prática, não podia sair do aeroporto, porque o Panamá também exigia um teste PCR para entrar. Catch 22, ou como se chama aquele filme em que um tipo dorme meses no aeroporto? Felizmente a Copa resolveu tudo de forma exemplar: 3 dias num hotel de 5 estrelas com comida e bebida pagas, e ele e os outros 3 com o mesmo problema só tiveram de pagar o teste PCR. No dia 31, pelo 2.º ano consecutivo, lá ia ele num avião meio vazio de volta à Holanda! Enfim, mais uma grande aventura.

Prova de mar, aqui com o Ingolf e o Machiel.
Volta a funcionar às mil maravilhas
São precisos 4 homens para fundear?

Entretanto, eu andava cada vez mais com os 2 barcos alemães, o Baradal (Uli e Martina) e o Intrepid Bear (Stefan e Astrid). Fomos recebidos todos juntos, de forma mesmo muito simpática, várias vezes em casa do Ingolf e da Enrita. O Ingolf dirige a fábrica de betão local e a Enrita, arubana de nascença, dá sessões de criatividade-com-cerâmica a arubanos e turistas. Mas sempre de volta a casa a horas, porque o recolher obrigatório significava estar em casa às 11.

Jantar animado em casa do Ingolf e da Enrita

No dia 2 de janeiro chegou a Marion, vinda de uma Holanda húmida e fria. 30 kg na mala, dos quais mais de 20 eram coisas para o barco, como um turbo novo para o motor. O avião ainda surpreendentemente cheio, mais ou menos a meio. Explorámos juntos as atrações naturais de Aruba, como uma caminhada de manhã cedo até à costa nordeste, o parque nacional Arikok, com peixinhos a mordiscar-nos os pés, e formações rochosas com uma vista magnífica. O que salta à vista em todo o lado é a simpatia e as boas maneiras dos arubanos. A natureza é uma espécie de semideserto, com muitos catos e outra vegetação capaz de sobreviver aos períodos secos, que podem durar anos. Este ano não foi nada o caso: nunca mais parava de chover, pelo menos 1 dia ou mais por semana. No fundo até gostei, vê-se a natureza a explodir para aproveitar o excesso temporário de água, por isso há florzinhas por todo o lado. E além disso fica um pouco mais fresco, sobretudo logo a seguir à chuvada, e o barco fica bem limpinho.

Piscina natural um pouco agitada demais para nadar
Fazem cócegas, os peixinhos, mas os calos desaparecem que é uma beleza…
Martina, Marion, Uli, Enrita e Ingolf
Vista sobre a Baía dos Cavalos com o sol e o barco…

Numa tarde, o Uli e eu fomos de carro até à empresa do Ingolf com o cilindro da retranca Hoyt e os vedantes novos que a Marion tinha trazido. Grande era a tensão quando o cilindro se abriu: seriam mesmo só os vedantes, e conseguiríamos reparar o cilindro? Sem esse cilindro o estai funciona muito pior, e teríamos de o substituir por uma série de cabinhos auxiliares. Ao fim de meia hora estava aberto e, de facto, vedantes danificados. Mais umas horas a penar e a coisa estava de novo montada. Ainda bem! O Ingolf não nos deixou pagar-lhe nada, e aos homens que fizeram o trabalho também não. Que país! Infelizmente o assunto ainda não estava arrumado, porque eu ainda tinha de arranjar ar comprimido para meter no cilindro de simples efeito. Depois de alguma ginástica mental, os 6 a 8 bar de um compressor revelaram-se muito longe de suficientes. Felizmente ainda tinha a bordo o mini-equipamento de mergulho. Mais umas idas ao senhor da hidráulica, que foi adaptando cada vez mais peças do equipamento de mergulho, e à loja de bricolage por bicos de enchimento de 1/2", e subindo a pressão com cuidado, aos 30 bar ficou finalmente bem: o cilindro sobe, mas não com demasiada força, e a pressão não subiu demais, de modo que sobra pressão suficiente para empurrar a retranca para baixo quando velejamos. Viva!

A dar a primeira tacada num dos 18 buracos… qual, já me esqueci!

Com o Jeroen e a Jeannette do Fidelis ainda se jogou golfe. Eu também fiz uma tentativa, mas logo no 1.º buraco ficou claro que ia atrasar demasiado toda a gente, por isso autopromovi-me a caddie. Bem, ou seja, andar por ali a acelerar num daqueles carrinhos elétricos. Um campo de golfe lindíssimo, num sítio lindíssimo. A Marion jogou bastante por cá — e de certeza mais do que na Holanda, onde estava tudo fechado! Também fizemos com o Fidelis e o Pitou um brunch de domingo absolutamente fantástico num dos hotéis de luxo. Pelos vistos ao domingo não têm muito que fazer, porque não foi caro — preço fixo, 4 pratos com pseudo-champanhe e café por 75 USD por casal…

Os trabalhinhos no barco afinal ainda estavam (muito) longe de terminar: a hidráulica estava de novo em ordem e o turbo que a Marion trouxe foi montado num instante, mas numa prova de mar descobrimos que tínhamos problemas com as réguas e com a vela grande, por isso lá voltámos a chamar a Marisol através da Varadero. A Marisol é a única na ilha com uma máquina de costura industrial adequada para pano de vela, e sabe fazer bastante coisa, mas o planeamento claramente não é o seu forte. Entretanto as semanas iam passando e parecia que não íamos chegar juntos a Bonaire. A certa altura decidimos então ficar mais um bocado em Aruba, o que não é castigo nenhum. Ao fim de seis semanas, que passaram a voar, a Marion voltou a entrar no pássaro azul, para regressar em maio.

Entretanto, finalmente recebi de volta a vela grande e o Stefan e o Uli ajudaram-me a montá-la de novo. Foi aí que percebemos também porque é que o estaleiro tinha tido de colar as réguas: alguns receptáculos (a peça de alumínio na parte da frente da vela onde encaixa a régua) não conseguiam rodar bem. Por isso, ou os fixámos na posição certa ou os pusemos de novo a funcionar. Infelizmente um deles não sobreviveu, por isso ainda tem de ser substituído.

Trabalhava-se até ao início da tarde, à tarde mais 1 trabalhinho no barco e pronto, já era noite outra vez, o que significava quase todas as noites convívio num barco qualquer. Uma chatice, a sério. Felizmente até o Uli viu o raio verde.

E assim passou fevereiro e, de repente, era março. Pela primeira vez em meses o vento mudou: 15 nós de leste, em vez dos habituais 20-25. Por isso, a toda a pressa, em 4 barcos de repente aceleraram-se, resolveram-se e despacharam-se coisas de toda a espécie para ainda irmos para Bonaire antes de o tempo voltar a soprar. O Ingolf, que num passado longínquo foi skipper de barcos de charter no Mediterrâneo, também queria muito vir. Para mim foi ótimo, porque assim não tinha de ir sozinho. Na quarta-feira teste PCR e despedidas de todos os que ficavam para trás, na quinta-feira alfândega e imigração, e toca a andar! Infelizmente, 6 horas depois da partida partiu-se a prancha do punho de pena da vela grande. Essa prancha está presa à vela grande com fitas — os leitores habituais sabem que em 2015 já tivemos problemas com as fitas do estai, por isso não fiquei propriamente surpreendido. Agora já não está presa, portanto, mas felizmente em Bonaire isto repara-se bem.

Até breve, Aruba!

À chegada, em que o Luuke e o Robbert do Eight nos passaram os cabos da boia de amarração, uma boia que tinham reservado às escondidas para nós com uma defensa, fomos depressa à alfândega e à imigração. Problema nenhum, bem-vindos a Bonaire. Infelizmente tive de deixar o Ingolf para trás por um bocado, porque no Eight o Luuke e o Robbert tinham planeado uma grande receção para o Fidelis e para mim. Um convívio de primeira! Muitas garrafas de vinho branco depois, lá voltei de alguma maneira para casa de bote, onde o Ingolf me ajudou a subir para o barco.

Hoje, o Ingolf e eu içámos o Uli ao mastro para ir buscar a prancha do punho de pena, daqui a pouco vêm o Stefan e a Astrid jantar, e amanhã estamos convidados no Eight. Estão a ver, isto aqui é mesmo um sacrifício…

O Merrimac na boia de amarração em Bonaire

Bom, por agora fico por aqui, vou procurar umas fotos horríveis de atividades muito animadas!

Vista do mastro (graças ao Uli)

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