Ainda não estamos em casa

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O plano era, a esta hora (18h37 em Aruba), estar lá em cima, no avião para casa, a contar-vos a semana fantástica que passámos aqui com os nossos novos familiares, a Jeannette e o Jeroen do Fidelis e a Luuke e o Robbert do Eight. Infelizmente, não estamos sentados no Airbus 330-200 rumo a Amesterdão, mas outra vez no apartamento ao lado da pista.

Como antes não tinha sido possível tirar o anemómetro avariado do mastro, o Kees foi ao barco logo de manhãzinha para ajudar uma aparelhadora (sim, uma senhora) a subir ao mastro. O Kees até já lá tinha ido acima, mas aqui sopra bastante, não tinha consigo a ferramenta certa e não lhe apetecia nada ser içado mais uma vez. Feito isto tudo, ainda ligou de bordo ao fornecedor do anemómetro, fechou o barco e, pronto para partir, saiu do barco às 11h30.

Ou melhor, foi aí que correu mal. Neste momento a memória dele começa lentamente a voltar quanto ao que aconteceu, mas passou a tarde inteira com amnésia de curto prazo. Resultado: um pequeno buraco na cabeça e uma comoção cerebral. Caiu de costas do escadote, que nós descemos sempre de marcha-atrás, e bateu com a nuca.

Primeiro, alguém do estaleiro, o Marwin, levou-nos a um posto de primeiros socorros. Aí fecharam-lhe a ferida, mas quiseram mandá-lo para o hospital principal para mais exames. De ambulância. Conclusão: hoje já não se voa. Por causa da COVID-19 não pude ir com ele na ambulância, por isso paguei a conta e o Marwin voltou para me buscar. Pelo caminho parou para comprar um pack de seis cervejas locais, abriu duas e eu achei que era para beber as duas, mas uma era para ele. Isto é Aruba, não é? Pelos vistos aqui bebe-se enquanto se conduz. As garrafinhas também não eram assim tão grandes. Antes de eu dar o último gole já me estava a passar a próxima e, em casa, ainda me deu a embalagem toda. Tão querido!

No apartamento despedi-me dos nossos amigos, que entretanto já tinham prolongado o aluguer do carro, remarcado os nossos bilhetes e ainda me ofereceram um almocinho. Vou ter tantas saudades deles! Gostamos imenso de vocês!!! O relato da nossa semana inesquecível fica para depois.

Quando cheguei ao hospital principal, primeiro fui parar ao sítio errado: tinha de ir às urgências, onde já andavam à minha procura. Já lhe tinham feito uma TAC. Tenho de dizer que a rapidez com que tudo aconteceu foi fantástica. De resto estava tudo bem, mas de facto nada de voar, e uma comoção cerebral. Além disso, ainda estava bastante desorientado e terrivelmente dorido. Mas pude levá-lo comigo. De cadeira de rodas até ao carro, primeiro pagar outra vez a conta e lá pudemos ir embora. Liguei logo aos miúdos e voltámos para o apartamento.

Claro que, a certa altura, o facto de não podermos ir para casa foi demais para mim, e o médico do primeiro hospital tentou consolar-me, dizendo que o meu marido ia ficar bem. Entre soluços, lá lhe consegui explicar que não era por isso que estava a chorar, mas sim, de forma muito egoísta, por mim própria, porque não podia ir para casa.

A tarde toda o Kees fez-me as mesmas perguntas, com as mesmas reações e os mesmos comentários. Às vezes muito engraçado, mas agora sei o que é cuidar de uma pessoa com demência. Sempre muito querido e positivo, isso sim.

100 vezes o que é que aconteceu, mais ou menos de 3 em 3 minutos. E eu a contar outra vez. Estavas lá? Não. Mas os rapazes do estaleiro estavam. Ah, sim??? Não se lembrava de nada. Nem do que tínhamos feito na noite anterior, nem do que tínhamos comido: sushi, que não comemos muitas vezes. Onde tínhamos jantado, com quem, tinha perdido tudo. Que a aparelhadora tinha subido ao mastro, em que ilha estamos. Tudo! Agora há coisas que estão a voltar, mas, por exemplo, ainda não sabe que esteve deitado numa ambulância.

100 vezes quando é que voamos para casa, mais ou menos de 3 em 3 minutos.

Quando ficou claro que não podíamos ir: então vamos quando? O quê? Só para a semana? Ah, pronto, então mais uma semaninha no paraíso. Ainda temos a casinha? E os bilhetes? Podia ter sido bem pior. Isso também 100 vezes, e ao fim da tarde passou a ser: raios, logo a mim é que isto havia de acontecer, e agora ficamos aqui mais uma semana.

100 vezes desculpa. Não faz mal, amor, podia ter sido pior.

E sempre, sempre a resmungar por não poder beber álcool.

O pessoal aqui do estaleiro está todo muito preocupado e prestável, mandam mensagens a perguntar como está, se podem fazer alguma coisa. Uma coisa que aquece o coração!!! Varadero Marine, o melhor sítio do mundo!! Alex, Rishi, Marwin, Judith e todos os outros, muito obrigada pela vossa hospitalidade!!

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