Última semana no Suriname, já partimos (a internet não é grande coisa, por isso ainda não consigo fazer tudo)

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Logo de manhã cedo, a 1 de janeiro, levantamos ferro rumo ao rio Commewijne. Este nasce na foz do rio Suriname, no norte do país, e serpenteia para leste. A meio caminho, do lado norte, sai um braço chamado Cottica. Na primeira noite fundeamos logo depois da bifurcação. Em ambas as margens há plantações, mas por causa da vegetação junto à água não se vê grande coisa. Experimentamos o nosso motor fora de borda novo entrando num riacho onde o Merrimac não pode passar por causa dos postes de alta tensão. Com este motor a velocidade é bem maior, por isso chegamos lá num instante.

O motorzinho novo porta-se lindamente

No dia seguinte continuamos a subir o Cottica, mas a meio do dia damo-nos por satisfeitos. A paisagem não varia muito e, entretanto, já se parece bastante com a do Alto Suriname, onde estivemos com os miúdos. Passamos por um pequeno afluente, o Perica, onde entramos à procura de um sítio para fundear. Há uma árvore a crescer mesmo no meio da água, por isso movimento não deve haver muito.

É um sítio maravilhosamente sossegado, de vez em quando corre uma brisa agradável e aproveitamos a calma e os nossos livros.

rio Perica

O silêncio é total, com um ou outro canto de pássaro de vez em quando. Mas ao cair da noite a coisa começa. Sob a direção inspirada da lua, que agita a batuta como um Haitink entusiasmado, e acompanhados pelo baixo contínuo do cricrilar de várias espécies de grilos, os diversos animais que habitam a selva à nossa volta vão entrando um a um, fazendo-se ouvir como num Bolero de Ravel. Com a diferença de que começa com os pássaros mais barulhentos e acaba, ao romper da aurora, com o canto mais suave. O baixo contínuo já esmoreceu, só os noctívagos aguentam firmes. Além de pássaros ouvimos bugios, cobras, mochos e, infelizmente, não percebo muito de fauna, por isso só posso tentar adivinhar. Gravei alguns sons, por isso talvez alguém me possa ajudar.

No dia seguinte voltamos a navegar para oeste. A Gea, uma conhecida do ténis, tinha-me dado o nome da plantação que o patrão dela comprou e recuperou há pouco tempo, onde também se come muito bem. Podemos fundear junto a Frederiksdorp e ir a terra de bote. Quando lhe mando uma mensagem a dizer que chegámos, a Gea responde que a Marcy também lá está. Nesse momento, uma senhora holandesa que também está na esplanada mete conversa connosco, mas está um bocado longe, por isso vem ter connosco para não termos de gritar. Apresenta-se: Marcy! “A Gea manda cumprimentos”, digo eu, e há logo uma empatia imediata e nessa noite as djogos de cerveja voam pela mesa. Como se nos conhecêssemos há anos. Que conversa! Felizmente também se juntou a nós um colaborador dela, o Clive, com quem o Kees pode ter uma conversa normal. O resort é lindíssimo, por isso recomendo vivamente a quem for ao Suriname.

De volta a Domburg, fazemos um churrasco de Ano Novo animado e delicioso. No domingo levamos as coisas com calma, compramos satay e legumes no mercadinho local de domingo e jantamos a bordo.

Segunda-feira, o último dia no Suriname. Vamos de carro à Polícia Militar para carimbar o passaporte e, como há muito que queria ver, vamos a pé até ao Museu do Koto. A dona faz-nos uma visita guiada e conta-nos imensas coisas sobre este traje crioulo. Temos conversas muito giras.

Almoçamos roti da cadeia de fast food local e eu ainda queria ir ao cabeleireiro. Quando o primeiro afinal só faz tranças, vemos outro numa esquina. Este também parece só fazer tranças, mas pergunto na mesma. Sim, cortar também pode ser. Combinamos quanto quero cortar, mostro-lhe a fotografia de um corte de que gostei e ela, por precaução, ainda pergunta: “Então quer podar?” Olho para ela assustada, mas ela traduz logo: cortar. Quando confirmo, aparece com uma tesoura de cozinha e começa a cortar pedaços de cabelo à altura do comprimento que tínhamos combinado. Ao fim de umas quantas tesouradas já deu a volta toda, dá um passo atrás para ver se está direito e diz que está pronto. Estão lá uns franceses a arranjar o cabelo crespo que dizem que está ótimo, e eu lá me conformo; de facto está bem, não vou a nenhuma festa. A Ella também se tinha oferecido para me cortar um bocado com a tesoura de cozinha, portanto ia dar ao mesmo. No fundo só me dava vontade de rir, porque pelo menos está bem mais curto e não fica esquisito.

À noite ainda bebemos um copo e jantamos com algumas pessoas na marina e despedimo-nos por agora; quem sabe se não nos voltamos a cruzar algures pelo caminho.

Esta manhã às 7 horas, com o sol a nascer por trás das árvores, levantámos ferro e estamos agora a navegar em direção ao oceano. Vamos ter saudades do Suriname, mas também estamos curiosos por conhecer novas paragens! A caminho de Granada.

Já nos podem voltar a seguir no tracker e vou publicar isto depressa antes que fique sem rede.

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