De visita por um bocadinho, Lisboa > Madeira

Esta página foi traduzida automaticamente. Ler o original (Nederlands)

IMG_0152

Uma semana de folga! Os nossos amigos velejadores Kees e Marion vão partir numa volta ao mundo. Adorava voltar a fazer uma travessia do Atlântico, mas há demasiado trabalho para os acompanhar de Cabo Verde até ao Suriname. Então fica-se por um bocadinho, de Lisboa à Madeira, para mesmo assim voltar a sentir por instantes aquilo que é a navegação oceânica: os golfinhos, os céus estrelados, a vida no mar. Fazemos esta etapa a quatro. O André também vem, mas ele fica a bordo até ao Suriname. O André é um amigo da vela. Quando há 3 anos atravessei o oceano, ele suspirou que adorava fazer o mesmo, mas que a empresa americana onde trabalha nunca o deixaria. «Então e já perguntaste?» Não. «Porque é que não perguntas se daqui a 2 anos te dão 2 meses de folga? Assim não pões o chefe entre a espada e a parede e ele fica a saber que ainda ficas mais 2 anos.» E não é que lhe deram autorização! O passo seguinte foi encontrar um barco. E tal como o Kees em tempos me aconselhou a procurar um barco através da base de dados de tripulantes da ARC para o meu sonho oceânico, assim o André e o Kees se conheceram a bordo do nosso barco, durante uma viagem a Inglaterra. O Kees e a Marion procuravam tripulação para algumas etapas e o André é daqueles velejadores que se pode recomendar a qualquer pessoa e que se dá bem com toda a gente. Um bom velejador e sempre bem-disposto. É fantástico agora navegarmos um bocadinho juntos no momento em que começa a viagem dos sonhos dele.

Domingo de manhã, às 05:30, fecho devagarinho a porta de casa em Kockengen. Umas horas depois estarei no cais em Lisboa e aí começa logo ‘o trabalho’. O Merrimac (www.merrimac.nl) está impecável e já foi levado este verão de Harlingen para Lisboa. Não há nada a fazer nele. Ainda é preciso, isso sim, abastecer o barco de mantimentos, embora a viagem até à Madeira seja de apenas 500 NM e, com o rápido Merrimac, provavelmente nem 3 dias levemos. Além disso, claro, temos de percorrer o barco todo e combinar procedimentos (de emergência), escalas de quartos e regras de convivência. Como é que nos vamos tratar uns aos outros, mesmo sendo bons amigos? Viver muito tempo juntos num espaço pequeno, ou ter vários comandantes no mesmo barco, já deu cabo de muitas amizades. Ajuda que o André e eu também tenhamos barco, por isso sabemos bem o cuidado que um proprietário tem com aquilo que é seu e o que se pode e não se pode fazer. É este lado pessoal da navegação de longo curso que considero o verdadeiro desafio, não tanto a vela em si. Isso sabemos todos fazer bem que chegue.

Às 09:45 subo a bordo. Transbordo de energia, como eu adoro isto! De volta ao oceano! Depois do pequeno-almoço metemos mãos à obra e ao fim da tarde o Kees anuncia que vamos largar no dia seguinte, depois do almoço.

Na segunda de manhã ainda tenho direito a subir ao mastro para fazer um simples reset ao anemómetro. Gosto de subir ao mastro pela vista deslumbrante e pelo ‘rapel’ cá para baixo. Ao meio-dia, um pouco antes do previsto, largamos as amarras. A passo de caracol descemos o Tejo. Temos a corrente contra, mas isso dá-nos a oportunidade de apreciar as margens de Lisboa. Por volta das 15:30 estamos em mar aberto e içamos as velas. Está um vento forte. Mais do que o previsto e ainda não bem da direção desejada. Enfim, também saímos umas horas mais cedo. Daqui a pouco há de melhorar. O oceano está uma máquina de lavar. Daqui a pouco há de melhorar….. Nem em águas mais profundas melhora e em pouco tempo estamos todos enjoados ou mal-dispostos. Uma experiência nova: nunca na vida tinha enjoado. Felizmente isso não nos impede de funcionar. Passadas umas horas o Merrimac está perfeitamente afinado e disparamos como uma flecha rumo à Madeira. Isto é que é velejar! Fazemos quartos. Uns fazem mais umas horinhas do que outros, consoante o grau de enjoo. Vamo-nos habituando ao barco e à vasta oferta de equipamento e dados. Na manhã seguinte o André ainda está um pouco verde, mas aos poucos vamos todos recuperando. O chá de gengibre dá-nos o último empurrão. Comer, quase ninguém come. Ao fim de 24 horas temos no contador um recorde de 225 NM numa singradura. A velocidade máxima a que surfámos uma onda oceânica foi de 24 nós, mais de 40 km por hora! Até parece a Volvo Ocean Race. Estamos todos inchados de orgulho. Entretanto, as ondas estabilizaram.

Na quarta de manhã o sol brilha e a conversa volta. Passamos todos o dia cá fora e para o almoço faço uma salada de cuscuz. O André vê golfinhos. Infelizmente, seguem caminho. Navegámos tão depressa que vamos chegar a Porto Santo por volta da meia-noite, em vez de quinta de manhã. À noite cozinho massa. O apetite voltou em pleno e já apanhámos o ritmo do oceano. Podia continuar assim dias a fio, e as recordações da minha travessia do Atlântico de há 3 anos enchem-me a cabeça. Isto é curto demais! Quero continuar!!

Por volta das 00:30 chegamos a Porto Santo. A agitação nervosa e as discussões ligeiramente irritadas sobre que luzes estamos ou não a ver numa chegada noturna destas conheço-as eu bem, depois de uma vida inteira a velejar; fazem parte, sem sombra de dúvida, e eu vou-me mantendo discretamente na minha. Nada de «é, não é» agora, é uma daquelas regras não escritas. Meia hora depois estamos fundeados na baía ao lado do porto. Amanhã de manhã logo se vê se há lugar lá dentro. Manobrar de noite sem propulsor de proa num porto pequeno e desconhecido, com uma brisa considerável, não é boa ideia. Arrumamos um pouco e fechamos esta viagem magnífica com umas cervejas da Brouwdok antes de irmos para o beliche.

Na quinta à noite aqueço o resto da massa. Na véspera tinha-a achado algo insossa, por falta de sal, por isso decido juntar uma boa colher de chá de sambal e um pouco de paprika para a animar. Agora sim, está saborosa. Ponho as taças na mesa e começamos a comer. 3 pares de olhos esbugalhados fitam-me sem palavras. Faz-se silêncio. E depois: «o que é que tu fizeste???» O Kees adora sambal, mas a Marion e o André mal o aguentam. O frasquinho de sambal que usei aparece em cima da mesa. O rótulo mostra claramente 🔥🔥🔥🔥🔥🔥🔥. Provo uma pontinha de faca. Hmmmm, bom. Pouco depois tenho o lábio inferior a arder. O André vai pesquisar e afinal o sambal é feito de Trinidad Scorpion, a segunda malagueta mais picante do mundo. Rimo-nos às gargalhadas. O Kees e eu ainda tiramos mais um bocadinho, isto sabe a pouco. No fim da noite sabemos tudo sobre as malaguetas mais picantes do mundo. As lágrimas correm-nos pela cara abaixo.

Na sexta às 8 horas fazemo-nos à vela rumo à Madeira propriamente dita. É uma travessia deliciosa de 5 horas com o pano todo em cima. Aproveitamos ao máximo. A atracação no porto, com vento forte de través e sem propulsor de proa, corre na perfeição, embora, devido à rapidez com que o mestre do porto despachou as coisas, não a tivéssemos preparado bem e o cais fosse traiçoeiramente alto. Mostra que somos todos velejadores experientes, que não só sabem velejar como também manobrar e trabalhar em equipa quando é preciso. Também isso é puro prazer.

Infelizmente, para mim está quase a acabar. Segunda à noite apanho um voo em Amesterdão para Manila, em trabalho, por isso domingo de manhã cedo tenho de fazer as malas. Passamos o sábado inteiro a passear de carro alugado pela parte oeste da Madeira. Que coisa tão bonita! À noite terminamos em casa de amigos do Kees e da Marion em…….

E ali estamos nós, a Marion e eu, domingo de manhã às 05:30. No nosso carro alugado, em frente ao portão do porto. Que não abre. Nem se mexe, nem há intercomunicador. Não temos muito tempo. Tento trepar o portão, mas já lá em cima percebo que, uma vez do outro lado, nunca mais consigo voltar. Não é boa ideia, portanto. Andamos com o carro mais umas vezes para a frente e para trás e carregamos em todos os botões. Nem um milímetro. De repente ouvimos algures atrás de nós uma voz grave de homem com uma espécie de sotaque russo. Aparece um segurança num carrinho de golfe. «Porr aqui, porr aqui». Vai à nossa frente por umas vielas e pouco depois estamos fora do recinto. Respiramos de alívio. Embora, cá entre nós, eu até tivesse gostado bastante de ficar….

Comentários